a memória gasosa

gasosas

no fojo fomos educadas no comedimento. nunca merendamos com cocacolas ou mirindas. eram essas cousas de dias especiais. e sempre bebemos água da bilha, vinda da traída da rocha, água rica e fresca do monte, dessa que nunca matou ninguém, como diz a vizinhança. ser educadas nessa moderação fez que sempre gozáramos de especial maneira às visitas à casa dos avôs, em ceia: os avôs, para o jantar, davam-nos gasosa. água com borbulhas a saltitar na boca. quando quedávamos vários dias, durante as férias, um dos nossos labores era controlar a passagem do camiom de repartimento, para remudar a caixa semanal. na casa dos avôs bebia-se gasosa a nosa, com as garrafas decoradas com um mapa da ria da arouça que gostávamos de recorrer com os dedos: aqui está cortegada, aqui vila garcia, aqui ceia. era provavelmente uma das primeiras palavras em galego que lembro escritas: a nosa.

no fojo fomos educadas também na dedicação a actividades inúteis, como a poesia. e anda a minha irmã estes dias querendo cartografar as fábricas de gasosa que houve (e há) por toda galiza. cousinhas de estudosa do património industrial galego. preparou um mini-questionário e pediu nas redes ajuda para completá-lo.

a surpresa foi ver como em dous dias o questionário rodava por féisbus e tuicters, era compartilhado por umas e outras e os muros rebordam de comentários a ponderar as maravilhas das gasosas de cada casa. rica era a que bebiamos nós, ai, eu lembro o senhor esperante no seu landrover, ahí viene ovidio en su moto sideral, y trae ghaseosa para todo el personal...

porque, ao final, as lembranças domésticas, as da cozinha na hora do jantar, as da avó enchendo o copinho da meninha sob a olhada fiscalizadora da comedida mamã, são as que só precisam de uma breve picada para estourar, como balão enchido de hélio. os recordos familares abrolham quando somos aguilhoadas aí, nesse ponto que nunca sabemos qual é, mas que de súbito, prói. e gostamos de falar em bebidas refrigerantes porque é falar das nossas infâncias em casas de avós que já não estão.

assim vinhemos a saber que a memória não é sólida nem líquida. a memória é gasosa.

e se queredes colaborar, estades em tempo:

https://docs.google.com/…/1T5tmU7KIevfelwJqxdolEA…/viewform…

A imagem é da coleção de garrafas de gasosa de Carmela.

videira

parra

umha tarde daquele verám

manuel dormia a sesta

deitado sob a frescura

da parra madurecida


nom buscou o abeiro

da ondulaçom dos sarmentos

da sombra dos pámpanos

dos cachos de uva bagacenta

a ponto de nascer o vinho


era umha tarde de agosto

e quem entrava era amigo


a filha adoita na hora de calor

procurar fresco um assento

sob outras uvas em sazom

à sombra doutros pámpanos

por baixo da mesma videira


e aguarda que o pai volva

neste tempo da vendima

feito ossos cinza orgulho


e estrear ao fim o pano de loito


esta terra é toda ela um cemitério

para o que ninguém arranja flores

no dia de defuntos


por trás deste poema anda a história do bisavó de dolores, amiga minha, desaparecido no 36 em pagamento polo terrível delicto de ser músico. o seu corpo ainda nom apareceu.

a foto tirei-na de aqui.

na ponte do barco

na ponte do barco estivemos ontem acompanhando a rogélio arca na lembrança de seu pai, assassinado no 36 junto com o companheiro anarquista secundino bugalho.

para mim foi um orgulho ler perante o monumento aos passeados, perante os sobreviventes e perante aquelas pessoas que luitam porque a memória nom devenha em esquecimento o meu poema desculpas.

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o norteamericano John Thompson, perante o monumento que marca o lugar do aparecimento dos cadáveres.

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com rogelio, o filho de francisco arca, o “socialista máis velho de cerdedo”. com eles lola, a quem agradeço o convite ao acto.

homenagem às pessoas represaliadas

na quinta estarei em pedre (cerdedo) com a Associaçom Verbo Xido na homenagem aos represaliados da Ponte do Barco.

podedes acompanhar-nos. as vítimas bem o merecem.

a foto é de vieiros.