essa olhada

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E vous parlez galicien?

Falamos.

Quem perguntou foi a adjunta do vereador de Landerne, Breizh, durante a recepção que ofereceram ao alunado do nosso centro que visitou essa vila num intercâmbio escolar. Era uma mulher pequena, duns sessenta anos, que mostrava interesse por essa outra fisterra assim tão desconhecida.

Lamentablement je ne parle pas breton. Ma mère le parlait et je le comprends. Mais à nous déjà ne nous l’ont pas enseignés. Et les élèves, aussi parlent galicien?

Falan.

Entre ils aussi?

Também.

E uma olhada rebordante de tenrura virou para onde o nosso grupo de adolescentes andava mais preocupado de rir e fazer brincadeiras que de atender diplomacias.

Nos enfants déjà ne parlent pas breton. Et ceux qui l’apprennent dans le collège ne l’usent pas entre ils, lamentou.

Estavamos num ato cerimonial, local mas cerimonial. E o meu francês é de opentrad. A cousa não dava para mais.

E guardei para mim as outras informações. Que em nove anos que levo na Arouça passei de ter um 90% de alunado galego-falante a ter um 90% com o galego como língua oculta. Que percebe, sim. Que fala, sim. Mas que evita, carregando com prejuízos que eu acreditava superados. Ocultei que sim, que som elEs, os nossos alunOs, os que usam a língua, e que são elas, as moças, as que abandonam, levadas por ditados de modas não escritas segundo as quais mulher galego-falante é menos mulher. Ocultei que este país é como um queijo de gruyère (Isabel Rei, roubo a comparação) com zonas nas que o galego está completamente desaparecido da vida quotidiana. Ocultei que a língua está a ser submetida a um processo de hibridação tal com o castelhano que perde toda a sua riqueza e diversidade.

Sobretudo, ocultei que o nosso país está a dar esse passo que ela tão bem resumiu: o da ruptura geracional. Que as crianças já não aprendem a língua das suas famílias, como a ela aconteceu. Ocultei que eu via nas suas palavras o plausível futuro da nossa língua: como estamos a viver esse momento em que uma geração deixa de falar embora perceba e a seguinte já nem percebe.

Ocultei todo isso. Não era o lugar. Não era o momento. Para que decepcionar a mulher que me fez o presente mais precioso de toda a semana?

Essa olhada.

Essa olhada de tenrura que dirigiu ao nosso alunado adolescente, o mesmo que nem a percebeu, mais preocupado de rir que de atender diplomacias, fez-me sentir orgulhosa. E fez-me ver que contamos com a arma mais eficaz para recuperar a língua: falamo-la. Entre nós. Falam-na muitas das nossas adolescentes. Mesmo entre elas. Falam-na muitas das nossas crianças. Com as avós. Com as tias. Entre elas.

Possuímos uma língua viva. Todas as nossas luitas devem partir dessa base: ainda está viva. Deixemos os velórios e os lamentos e celebremos a vida.

há línguas que sumam…

E ATITUDES QUE DIVIDEM…