ocamposanto

cemiterio-goiriz

no fimdaterra
os cemitérios som brancos
mediterráneos
luz iluminada     sombras que reflictem um abismo

no fimdaterra
os cemitérios som pequenos recolhidos
como em lira
areia e cunchas limitam os recintos
e devoltos afogados escuitam o mar
os seus bufidos.

no fimdaterra
os cemitérios presidem horizontes
como em lamas
e ao pé de extintas labregas falecidas
cresce a oliveira o cipreste a relva
a hera que trespassa a minha vista

no fimdaterra
os cemitérios cantam na noite
como em lodoselo
cercado de flores de amigos
dorme o antergo
as lajes escuitam gastas polos anos
os nomes nom me som reconhecidos

no fimdaterra
os cemitérios som estranhos
como em fisterra
ecos modernos alheios valdeiros
sem cruzes nem memória
só cantrojo e ares de mar

no fimdaterra
os cemitérios estám vazados:
nom há maos que lavrem os sartegos
pois som eu a única coveira
para centos e todos os defuntos

e só nos cemitérios
nom cheira a podre.

A imagem tirei-na de aqui.

videira

parra

umha tarde daquele verám

manuel dormia a sesta

deitado sob a frescura

da parra madurecida


nom buscou o abeiro

da ondulaçom dos sarmentos

da sombra dos pámpanos

dos cachos de uva bagacenta

a ponto de nascer o vinho


era umha tarde de agosto

e quem entrava era amigo


a filha adoita na hora de calor

procurar fresco um assento

sob outras uvas em sazom

à sombra doutros pámpanos

por baixo da mesma videira


e aguarda que o pai volva

neste tempo da vendima

feito ossos cinza orgulho


e estrear ao fim o pano de loito


esta terra é toda ela um cemitério

para o que ninguém arranja flores

no dia de defuntos


por trás deste poema anda a história do bisavó de dolores, amiga minha, desaparecido no 36 em pagamento polo terrível delicto de ser músico. o seu corpo ainda nom apareceu.

a foto tirei-na de aqui.

crebas

na borda do abismo

o mar vomita os restos do mundo

a mim chega tudo

robinsona

ilha tam enorme ninguém tivo

jangada de pedra e terra e lume e cimento.

 

encalhados nas rochas

invadidos de arneirom

agromam frigoríficos carros televisores.

 

na orla da praia recolho

bombas de oxigénio dentaduras postizas

meias furadas marcos de janelas.

 

diogénico mar           higiénico mar

 

enredados nos argaços aboiam

contratos-lixo comidas lixo latas de cocacola

esqueletes afogados em pateras cadáveres-lixo

restos da civilizaçom que foi minha.

 

na falésia me instalo

na falácia na inocência

na ingenuidade de aguardar a chegada

no vai-e-vem das ondas

das bolas de cores

das pás e os caldeiros

das molduras de peixes

para construir

novos castelos

na areia

cabanas

no ar.

 

a fotografia é de manuel sendón