seca

15156_05mariscadoras

sinto urgências de poesia
e nom saem os versos

anegam-me as palavras
como areia
mas o sacho nom atende
a água é tanta e o esterco

mariscam as mulheres
eu aprendo

é só aguardar que o mar se retire

caneta pronta


a foto tirei-na de aqui.

sementeira

as viúvas tinham proibido visitar os mortos
e atiravam flores por cima do muro,
flores agachadas sob negro mantelo,
flores da memória adoçando o cal vivo,
flores só celebradas por aves de rapina.

passavam lentas, tentando as pedras com as gemas dos dedos, escrevendo mensagens braille com o tacto das mãos, a testa baixa ocultando o orgulho, a tensão do músculo mastoide, sensíveis a qualquer olhada, a qualquer murmúrio, e zás, atiravam a flor por cima do muro, folha voandeira, homenagem secreta aos mortos anônimos, fundidos em um só morto no fojo comum

flor de vida que pousa
lenta e dançarina
nas caveiras recônditas
que antes foram
cerna semente futuro.