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tanto me tem

 

porque está proibido

baixamos ao ghadis

descendo com aleghria

as escadas       os andares

porque está proibido

pedimos cartões [todos] à caixeira

que dá licença [toda também]

porque está proibido

o papá incomoda-se

porque está proibido

que andaredes a fazer

com tanta tessoura e cinta americana

porque está proibido

seguimos um titorial pirata

os passos bem marcados

as medidas bem tomadas

porque está proibido

recortamos notas de cores

traçamos sim              traçamos não

porque está proibido

 

porque está proibido

saímos à rua contentes

porque está proibido

enchemos de caixas passeios

torreiros  praças  eitões

levamos as mesas pregáveis

tumbonas pás e piqueniques

porque está proibido

chamamos aos gritos   chamamos à gente

porque está proibido

votamos nas urnas

de cartão do ghadis

papelinhos de cores

que dizem sim         que dizem não

porque está proibido

tanto me tem

que ganhe o não    que ganhe o sim

porque está proibido

eu voto na rua

 

porque está proibido

eu reclamo

 

a independência.

as virtudes das eleições

[ontem desabafei no féisbu e escrevim este texto. houve muita gente que gostou e partilhou. coloco aqui, para as que passedes do efe azulão)

calculo que foi nos comícios de 1996, vistas as protagonistas. eu andava nos 22 anos. fui votar. ao chegar à escola encontrei-me com virtudes, vizinha.
– que bem, vem comigho e ajudas-me a colher o voto, disse-me.
eu era uma moça comportadinha e cumpridora das leis.
– não podo, virtudes, tens que ir ao presidente da mesa e que che ajude ele.
– eu esse não quero que me ajude. quero que venhas ti. não sei ler. tens que dizer-me qual é o papel que tenho que colher.
eu era uma moça comportadinha mas sentim que virtudes não queria admitir diante do presidente que era analfabeta. acompanhei-na. como era comportadinha, fui raivada o tempo todo que caminhamos pensando em ter que colher para ela a papeleta do pp. não, não era quem de enganá-la e dar-lhe outra. uma oportunidade perdida. um voto menos que não me sentia quem de provocar. era comportandinha, lembrade.
chegadas à mesa onde pairavam as papeletas, virtudes puxou do meu braço, achegou a boca à minha orelha e sussurrou, mui baixinho:
– dá-me a de anguita.
colhim-lha sorrindo e contenta da grande lição que acabava de receber, de balde, da minha vizinha analfabeta.

eu aprendim isso com 22 anos. outras muitas, muitas das que comentam os resultados de ontem. muitas mesmo universitárias que falam com desprezo das “aldeias de ourense”, precisam duma virtudes a zoscar-lhes um lostreghaço inteletual (e político).

a da foto não é virtudes, mas uma vizinha de virgílio vieitez que seguro viveu os tempos mesmos que virtudes. e eu não podo deixar de imaginar que dura houve de ser a vida para uma comunista numa aldeia galega e no franquismo ao lembrar esta anedota e visionar estas imagens. #umrespeito

 

virxilio-vieitez-1

a capirota

o seique levou-me a marim há messes e daquela já me trouxe ao dia de hoje, pois nasceu o compromisso de acompanhar à Associação para a Recuperación da Memória Histórica de Marín na sua homenagem anual às vítimas da repressão fascista e a ditadura.

o lugar, o poço da revolta, em baguim, mogor.

mogor1a

um espaço fermoso, com as ilhas onça e ons ao alcanço da vista e a praia de aguete aos pés. um espaço de horror, utilizado em 36 para dar o tiro de graça àquelas que incomodavam ao novo regime.

levei dous velhos poemas, a carapuchinha (quiçás um dos meus preferidos dos meus) e a lavandeira, os dous do livro aquiltadas.

e contou-me queta otero molas, ao telefone, a estória de carmen a capirota, e, amedida que ia contanto, mais se me parecia á bisavó elena, que também fora lavandeira, que também atendera sozinha uma criança, que também era mulher forte e de carácter. e escrevim este poema unindo as duas mulheres, que de viver na mesma vila, haviam partilhar água de rio e luitas escondidas.

mogor_recitando1

revolta e lavandeira

 

era pequena como uma pulga

lembra-se levada, elevada,

da mão da avó elena,

anda, vem, que lhe hão dizer

a uma velha a uma criança

que nos hão fazer

eram os anos cinquenta e mamã

quase nem lembra

anda, vem, e ajudas-me

a retorcer os panos.

 

recorda mamã que a avó elena

tinha um buscalavida de mal nome

porque esfregando alheias roupas

dera em criar a filha nem de arrimo

nem das silveiras mas carminha

 

shhhhh, que ninguém escuite

aí faziam os alemães os canões

os da guerra grande          a outra que não a nossa

shhhhh, não digas que che disse

 

lembra a avó elena

e não lembra um avô

sozinha andou a velha

com mamã levada

voada             da mão

 

lembra o seu lugar no rio do com

lavandeira respeitada entre as iguais

com peitoril em pedra

direito ao lago        água em remanso

e mamã ajudava a estender os panos

na erveira capelo capirote

a proteger dos falares       da chuva

shhhhh, há roupa a clareio

e mamã não entendia tanto segredo

 

nunca ninguém matou a bisavó elena

no poço da lage      no de santa luzia

mesmo sabendo-a afouta e algo roja

nunca ninguém lhe pegou um tiro

após ter violentado o seu corpo

de maneiras outras

antes de violentar-lho

em exposição pública

 

e mamã pouco lembra

era pequena como uma pulga

mas repassa de leve

as mãos com as gemas dos dedos

quando fala da avó elena

porque ainda sente na conca

o engurrado tacto e fervente

da avó elena a segurar-lhe

os tristes tempos da posguerra

 

o engurrado tacto e fervente

de uma avó

 

isso lhe arrebataram

às netas da capirota.

 

 

mogor, 18 de setembro de 2016, 80 anos após.

 

 

 

irmandadas

cartaz-LilasIrmandades

quando nasceu a possibilidade de comemorar o centenário das Irmandades da Fala eu mostrei curiosidade polo papel das mulheres nesse movimento.

– não há quase, disse-me mais de um especialisto. alguma na crunha, só a mulher de ánxel casal em santiago.

pois não comemoro, ló, pensei para mim. fartinha estou de eventos pirolos.

só que não é verdade. não é certo que não haja mulheres. o que não há, como diz encarna otero, é quem queira vê-las. como sempre, falta documentação e falta quem deixe e saiba ler a que existe. mas por toda a parte há pegadas de um movimento feminista incipiente atento ao que acontecia no campo internacional.

por isso aceitei comemorar, esta vez sim, as irmandadas, convidada pola comissão de história da gentalha do pichel.

levei este textos, nascidos do mergulho urgente em redes e papeis. vão aqui, em documento à parte para que não fagam eterna esta entrada e podades re-utilizar.

essa olhada

kemper1

E vous parlez galicien?

Falamos.

Quem perguntou foi a adjunta do vereador de Landerne, Breizh, durante a recepção que ofereceram ao alunado do nosso centro que visitou essa vila num intercâmbio escolar. Era uma mulher pequena, duns sessenta anos, que mostrava interesse por essa outra fisterra assim tão desconhecida.

Lamentablement je ne parle pas breton. Ma mère le parlait et je le comprends. Mais à nous déjà ne nous l’ont pas enseignés. Et les élèves, aussi parlent galicien?

Falan.

Entre ils aussi?

Também.

E uma olhada rebordante de tenrura virou para onde o nosso grupo de adolescentes andava mais preocupado de rir e fazer brincadeiras que de atender diplomacias.

Nos enfants déjà ne parlent pas breton. Et ceux qui l’apprennent dans le collège ne l’usent pas entre ils, lamentou.

Estavamos num ato cerimonial, local mas cerimonial. E o meu francês é de opentrad. A cousa não dava para mais.

E guardei para mim as outras informações. Que em nove anos que levo na Arouça passei de ter um 90% de alunado galego-falante a ter um 90% com o galego como língua oculta. Que percebe, sim. Que fala, sim. Mas que evita, carregando com prejuízos que eu acreditava superados. Ocultei que sim, que som elEs, os nossos alunOs, os que usam a língua, e que são elas, as moças, as que abandonam, levadas por ditados de modas não escritas segundo as quais mulher galego-falante é menos mulher. Ocultei que este país é como um queijo de gruyère (Isabel Rei, roubo a comparação) com zonas nas que o galego está completamente desaparecido da vida quotidiana. Ocultei que a língua está a ser submetida a um processo de hibridação tal com o castelhano que perde toda a sua riqueza e diversidade.

Sobretudo, ocultei que o nosso país está a dar esse passo que ela tão bem resumiu: o da ruptura geracional. Que as crianças já não aprendem a língua das suas famílias, como a ela aconteceu. Ocultei que eu via nas suas palavras o plausível futuro da nossa língua: como estamos a viver esse momento em que uma geração deixa de falar embora perceba e a seguinte já nem percebe.

Ocultei todo isso. Não era o lugar. Não era o momento. Para que decepcionar a mulher que me fez o presente mais precioso de toda a semana?

Essa olhada.

Essa olhada de tenrura que dirigiu ao nosso alunado adolescente, o mesmo que nem a percebeu, mais preocupado de rir que de atender diplomacias, fez-me sentir orgulhosa. E fez-me ver que contamos com a arma mais eficaz para recuperar a língua: falamo-la. Entre nós. Falam-na muitas das nossas adolescentes. Mesmo entre elas. Falam-na muitas das nossas crianças. Com as avós. Com as tias. Entre elas.

Possuímos uma língua viva. Todas as nossas luitas devem partir dessa base: ainda está viva. Deixemos os velórios e os lamentos e celebremos a vida.

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