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tanto me tem

 

porque está proibido

baixamos ao ghadis

descendo com aleghria

as escadas       os andares

porque está proibido

pedimos cartões [todos] à caixeira

que dá licença [toda também]

porque está proibido

o papá incomoda-se

porque está proibido

que andaredes a fazer

com tanta tessoura e cinta americana

porque está proibido

seguimos um titorial pirata

os passos bem marcados

as medidas bem tomadas

porque está proibido

recortamos notas de cores

traçamos sim              traçamos não

porque está proibido

 

porque está proibido

saímos à rua contentes

porque está proibido

enchemos de caixas passeios

torreiros  praças  eitões

levamos as mesas pregáveis

tumbonas pás e piqueniques

porque está proibido

chamamos aos gritos   chamamos à gente

porque está proibido

votamos nas urnas

de cartão do ghadis

papelinhos de cores

que dizem sim         que dizem não

porque está proibido

tanto me tem

que ganhe o não    que ganhe o sim

porque está proibido

eu voto na rua

 

porque está proibido

eu reclamo

 

a independência.

a capirota

o seique levou-me a marim há messes e daquela já me trouxe ao dia de hoje, pois nasceu o compromisso de acompanhar à Associação para a Recuperación da Memória Histórica de Marín na sua homenagem anual às vítimas da repressão fascista e a ditadura.

o lugar, o poço da revolta, em baguim, mogor.

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um espaço fermoso, com as ilhas onça e ons ao alcanço da vista e a praia de aguete aos pés. um espaço de horror, utilizado em 36 para dar o tiro de graça àquelas que incomodavam ao novo regime.

levei dous velhos poemas, a carapuchinha (quiçás um dos meus preferidos dos meus) e a lavandeira, os dous do livro aquiltadas.

e contou-me queta otero molas, ao telefone, a estória de carmen a capirota, e, amedida que ia contanto, mais se me parecia á bisavó elena, que também fora lavandeira, que também atendera sozinha uma criança, que também era mulher forte e de carácter. e escrevim este poema unindo as duas mulheres, que de viver na mesma vila, haviam partilhar água de rio e luitas escondidas.

mogor_recitando1

revolta e lavandeira

 

era pequena como uma pulga

lembra-se levada, elevada,

da mão da avó elena,

anda, vem, que lhe hão dizer

a uma velha a uma criança

que nos hão fazer

eram os anos cinquenta e mamã

quase nem lembra

anda, vem, e ajudas-me

a retorcer os panos.

 

recorda mamã que a avó elena

tinha um buscalavida de mal nome

porque esfregando alheias roupas

dera em criar a filha nem de arrimo

nem das silveiras mas carminha

 

shhhhh, que ninguém escuite

aí faziam os alemães os canões

os da guerra grande          a outra que não a nossa

shhhhh, não digas que che disse

 

lembra a avó elena

e não lembra um avô

sozinha andou a velha

com mamã levada

voada             da mão

 

lembra o seu lugar no rio do com

lavandeira respeitada entre as iguais

com peitoril em pedra

direito ao lago        água em remanso

e mamã ajudava a estender os panos

na erveira capelo capirote

a proteger dos falares       da chuva

shhhhh, há roupa a clareio

e mamã não entendia tanto segredo

 

nunca ninguém matou a bisavó elena

no poço da lage      no de santa luzia

mesmo sabendo-a afouta e algo roja

nunca ninguém lhe pegou um tiro

após ter violentado o seu corpo

de maneiras outras

antes de violentar-lho

em exposição pública

 

e mamã pouco lembra

era pequena como uma pulga

mas repassa de leve

as mãos com as gemas dos dedos

quando fala da avó elena

porque ainda sente na conca

o engurrado tacto e fervente

da avó elena a segurar-lhe

os tristes tempos da posguerra

 

o engurrado tacto e fervente

de uma avó

 

isso lhe arrebataram

às netas da capirota.

 

 

mogor, 18 de setembro de 2016, 80 anos após.

 

 

 

isso é o amor

@s amig@s da palavra comum pediram-me um favor:

-ouh, susana, visiona o clip do último tema do caxade e escreve qualquer cousa para a revista.

eu gosto do caxade e da palavra comum, e visionei (uma outra vez, que já tinha visto -isso não contei ao mensageiro).

e foi assim tal qual. a tenrura e ledícia que transmitem a música e as imagens trougeram-me à memória marina de ferrim, vizinha rideira e colorida (como boa costureira) que tenramente contava dos seus amores moços com pepe, que continuava a ser o seu velho amor. e escrevim para a palavra comum, para caxade, para eles, marina e pepe, e para bárbara, a neta, este poema, que partilha artigo com outras leituras.

e isso é o amor

visionando a verbena

do caxade

acordou-me

que marina ia de socos

e balouçava na mão

limpos sapatos de salto

brancos

e guardava os socos

tão tosquinhos e de madeira

entre as pedras de um valado

e calçava os brancos sapatos

de ponta descoberta

 

[sandálias ló, dizia eu]

cala e escuita,

que este conto é nosso:

 

e luzia unlhas pintadas

e botava a baila com pepe

e outra baila e uma rumba

e três carinhos clandestinos

e mudava sapatos [sandálias]

por socos e voltava ao carreiro

de lama com a música e os beijos

ainda a dançar

no rosado das unlhas dos pés

abrigados na camurça dos socos.

 

e acordou-me

que uma noite

alguém levou os socos voaram

ou marina esqueceu o agocho

ou pepe escondeu para durar a festa

e houve de fazer o caminho todo

de curantes ao fojo

com os sapatos da mão

para não estropiar-lhes a brancura

e os pés descalços

e as unlhas rosas

e a música e os beijos

e o amor todo a dançar

na frescura da lama.

 

acordou-me isso.

 

 

irmandadas

cartaz-LilasIrmandades

quando nasceu a possibilidade de comemorar o centenário das Irmandades da Fala eu mostrei curiosidade polo papel das mulheres nesse movimento.

– não há quase, disse-me mais de um especialisto. alguma na crunha, só a mulher de ánxel casal em santiago.

pois não comemoro, ló, pensei para mim. fartinha estou de eventos pirolos.

só que não é verdade. não é certo que não haja mulheres. o que não há, como diz encarna otero, é quem queira vê-las. como sempre, falta documentação e falta quem deixe e saiba ler a que existe. mas por toda a parte há pegadas de um movimento feminista incipiente atento ao que acontecia no campo internacional.

por isso aceitei comemorar, esta vez sim, as irmandadas, convidada pola comissão de história da gentalha do pichel.

levei este textos, nascidos do mergulho urgente em redes e papeis. vão aqui, em documento à parte para que não fagam eterna esta entrada e podades re-utilizar.

verbo na arria

573309142dead-verbonaarria

quando merquei as pedras caídas que hoje são a minha casa fui bem recebida na aldeia de arcos. numa das visitas fui levada por um par de vizinhos a ver algo que consideravam especial: achegamo-nos à fonte do fundo da aldeia, essa que tenho quase na porta, e mostraram-me, orgulhosos, a placa que a preside, ainda:

– ighual é a única que que “eles” não puderam destragar.

a placa levava uma data: 1932. a fonte era republicana e “eles”, os destrutores fracassados, eram os fascistas.

ser recebida assim na aldeia em que decidim viver foi fermoso.

quando fui convidada a participar no projeto de homenagem a Xohán Xesús González, ao que cheguei tarde mal e arrastadinha, não duvidei. o poema tinha que ser para a fonte. e a orghulhosa aghora sou eu.

arcos de arriba

¡Ai das que levan na fronte unha estrela!
¡Ai das que levan no bico un cantar!

Manuel Curros Enríquez

a gata que fez casa no alpendre

abandona as criancinhas

de quando em vez

e caminha calma até a fonte das estrelas

por botar um grolo de água fresca.

a ela tanto lhe têm as estrelas

e a cantaria da fonte

ela só quer botar um grolo apagar a sede

entanto vigia o mínimo uivo

que nasça do fundo da palheira.


um tritão gostou da fonte das estrelas

para viver e desovar e hibernar

ele nada sabe da existência das estrelas

cinzeladas na orla exterior do cano

tão primorosamente.

ele permanece absorto e atento

às vibrações na água

das lentas pisadas gatunas

por se acovilhar apressado

entre as fendas da fonte das estrelas.


rosa coloca quando é o tempo

na fonte das estrelas

sementes de acelgas de leitugas

por ver se abrocham e crescem.

as acelgas desconhecem as estrelas

[as leitugas já nem contam

de pouco espelidas]

elas sô pensam em botar raízes

e gozar do sol           astro único do seu interesse.


eu sim sei

que são essas estrelas da fonte.


sei que as mãos que as talharam

eram de um canteiro

morto passeado assassinado

nas estremas dos montes que separam

a fonte                           das estrelas.


e porque o sei

de quando em vez

se o dia é claro e sem chuvieiras

ainda tendo máquina de lavar

busco um farrapo uma sacola de lona

as chirucas ençoufadas em lama

e vou esfregá-las nas lousas do peitoril

e eslavo-as na água que canta no bico

da fonte das estrelas.


porque aprendim da gata do tritão das acelgas

[mesmo das leitugas que não são espelidas]

que a melhor homenagem que podemos fazer

a mortas passeadas assassinadas

é continuar a viver a vida.


isso sim

com a clara consciência

de que em 36 alguém morreu

por cinzelar

  para nós

estrelas.

 

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