a capirota

o seique levou-me a marim há messes e daquela já me trouxe ao dia de hoje, pois nasceu o compromisso de acompanhar à Associação para a Recuperación da Memória Histórica de Marín na sua homenagem anual às vítimas da repressão fascista e a ditadura.

o lugar, o poço da revolta, em baguim, mogor.

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um espaço fermoso, com as ilhas onça e ons ao alcanço da vista e a praia de aguete aos pés. um espaço de horror, utilizado em 36 para dar o tiro de graça àquelas que incomodavam ao novo regime.

levei dous velhos poemas, a carapuchinha (quiçás um dos meus preferidos dos meus) e a lavandeira, os dous do livro aquiltadas.

e contou-me queta otero molas, ao telefone, a estória de carmen a capirota, e, amedida que ia contanto, mais se me parecia á bisavó elena, que também fora lavandeira, que também atendera sozinha uma criança, que também era mulher forte e de carácter. e escrevim este poema unindo as duas mulheres, que de viver na mesma vila, haviam partilhar água de rio e luitas escondidas.

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revolta e lavandeira

 

era pequena como uma pulga

lembra-se levada, elevada,

da mão da avó elena,

anda, vem, que lhe hão dizer

a uma velha a uma criança

que nos hão fazer

eram os anos cinquenta e mamã

quase nem lembra

anda, vem, e ajudas-me

a retorcer os panos.

 

recorda mamã que a avó elena

tinha um buscalavida de mal nome

porque esfregando alheias roupas

dera em criar a filha nem de arrimo

nem das silveiras mas carminha

 

shhhhh, que ninguém escuite

aí faziam os alemães os canões

os da guerra grande          a outra que não a nossa

shhhhh, não digas que che disse

 

lembra a avó elena

e não lembra um avô

sozinha andou a velha

com mamã levada

voada             da mão

 

lembra o seu lugar no rio do com

lavandeira respeitada entre as iguais

com peitoril em pedra

direito ao lago        água em remanso

e mamã ajudava a estender os panos

na erveira capelo capirote

a proteger dos falares       da chuva

shhhhh, há roupa a clareio

e mamã não entendia tanto segredo

 

nunca ninguém matou a bisavó elena

no poço da lage      no de santa luzia

mesmo sabendo-a afouta e algo roja

nunca ninguém lhe pegou um tiro

após ter violentado o seu corpo

de maneiras outras

antes de violentar-lho

em exposição pública

 

e mamã pouco lembra

era pequena como uma pulga

mas repassa de leve

as mãos com as gemas dos dedos

quando fala da avó elena

porque ainda sente na conca

o engurrado tacto e fervente

da avó elena a segurar-lhe

os tristes tempos da posguerra

 

o engurrado tacto e fervente

de uma avó

 

isso lhe arrebataram

às netas da capirota.

 

 

mogor, 18 de setembro de 2016, 80 anos após.

 

 

 

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