café amargo

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entro no café. lá esta dolo, a minha amiga. sempre combinamos nesta hora. falamos e lemos a imprensa do domingo. comentamos a semana. rejoubamos.

neste momento uma tem um jornal na mão; a outra uma revista. lemos, e de quando em vez, uma comenta olha o que disse rajoi; a outra para a leitura, marca com o índice a linha em que vai e atende.

um homem, desconhecido para as duas, achega-se. desarrima uma das cadeiras e senta. fala uma vez acomodado.

– vou sentar com vós. vejo que estades sozinhas e aborrecidas.

 

– quem che disse tal.

 

– podo ficar aqui com vós?

 

– faz o que che pete – e continuamos como antes. uma tem um jornal na mão; a outra uma revista. lemos, e de quando em vez, uma comenta olha o que disse feijoo; a outra para a leitura, marca com o índice a linha em que vai e atende.

passados uns minutos o homem ergue-se, vai para o balcão e comenta algo com o camareiro, partilhando ambos risadinhas e olhadas cara a nós. será o de sempre. bordes, malfolhadas, lésbicas, amargadas, reprimidas, feias. o que escuitamos quando rejeitamos uma conversa, uma dança ou um sorriso que se nos supõem obrigatórios. porque temos sorte de que um gajo queira sentar e falar com nós.

podiamos erguer-nos (uma de nós, as duas), dirigir-nos ao senhor e explicar-lhe quatro cousas. imagino a surpresa geral: as pessoas a levantar a vista das suas conversas e olhar para essa(s) histérica(s) que abronca a um homem. porque provavelmente, embora estando no café, ninguém reparara no acontecido.

não tinhamos que reagir assim, diredes algumas. que vos custava ser amáveis. e eu ás vezes também o penso: que me custava ser amável.

não estás a ser um pouco exagerada? um homem tentou flirtear com vós, não teve sucesso, já leva nisso a penitência. a que lhe dás mais voltas?

isso não é machismo, é má educação (como se fossem incompatíveis); pode ser. porém, havia mais mesas ocupadas e a nossa era a única na que não havia homens.

não atuariades assim se fosse um moço gharrido e fermoso. quem sabe. mas estou certa de que se um moço gharrido e fermoso interrompe a minha vida sem eu lhe dar pé, também me incomodo.

para que vas a um local público, se não queres interatuar com desconhecidos? bom, eu combinara com uma amiga, não com o mundo todo.

se tanto te incomodou, por quê não o denuncias? não me berrou, nem me insultou, nem me ameaçou, nem sequer me tocou um pelo da pele.

qualquer que fosse a nossa resposta, esta vai ser questionada por tírios e troianos: demasiado neutra, demasiado agressiva, demasiado indulgente, demasiado… a única que seria percebida como normal seria aquela que se espera de nós: sorriso de amabilidade e consentimento na partilha de mesa e conversa.

o caso é que debatendo a pertinência da reacção minha e da minha colega (admito que ela foi menos borde), perdemos o foco do fundamental: um gajo invade um espaço ocupado por mulheres e, ao sentir-se rejeitado, tenta ridiculizar a situação buscando apoio noutro homem.

o assunto importante (por enquanto para mim) não é se o gajo em questão foi agradável, maleducado ou impertinente. a questão é que ele considerou que PODIA fazer isso. a mim nem se me ocorre achegar-me a uma mesa de pessoas desconhecidas e sentar sem permissão e meter-me na sua conversa. porém, muitos homens, mais dos que tenho vontade de suportar, consideram que SIM PODEM meter-se nas minhas conversas, nas minhas danças, nas minhas calças, só porque eu sou mulher e eles homens. exercem o privilégio sem parar a pensar nele, sem cair na conta de que não, ninguém tem direito a invadir a intimidade de ninguém se não há sinais que convidem. certo é que podemos confundir os sinais. mas também é verdade que muitos exercem o seu privilégio mesmo quando há um rejeitamento explícito. o homem da anedota tardou dez minutos em erguer-se da cadeira e abandonar a nossa mesa. dez minutos. e o fez para rir de nós desde a superioridade que lhe dava o cóvado apoiado no balcão do bar. pedir desculpa nem se lhe passou pola cabeça.

quando uma companheira define um homem como invasivo ou pesado sei de que está falar. sei-no porque o vivim, vivo-o e, muito temo, vivirei-no. cadavez que fago vida social, de qualquer tipo, laboral, política, cultural, de lazer, dou com homens que atuam dessa maneira. levo a mala da experiência carregada de anedotas deste tipo, que ao ser continuadas no tempo já não podem ser chamadas anedotas. é o contexto em que me movo. queira ou não. e devo aceitá-lo ou deixá-lo, seique. o que não me convém é alçar a voz e falá-lo, seique.

quando vivo estas situações, porvezes tenho paciência, outras estou de bom humor e fago zombaria, outras vezes sou borde e distante [deve ser a mais das vezes, pois essa é a sona que me acompanha], poucas vezes sou violenta, mas não porque não me tenha faltado a vontade, senão o atrevimento; também há vezes em que me sinto mal, culpável de não sei qual delito, porque não sempre o meu ánimo está ótimo e não recebo essas mensagens da mesma maneira. o que sim é sempre é cansativo, mui cansativo. mesmo esgotador.

aquilo que [praticamente] nunca encontro é uma reflexão desses homens sobre o próprio comportamento, sobre o próprio privilégio. quando a sua atitude é visibilizada, na forma em que o for, a reação é de livro: radical, feminazi, extremista. já nem pode um sentar com uma moça para ver se há assunto… nada sobre a própria maneira de relacionar-se ou dirigir-se às mulheres.

podo entender, mesmo suportar, depende de quando onde e como, que um homem tenha uma atitude machista. eu tenho-as. reviso os meus comportamentos, reflexiono, ando alerta, porém não podo evitar que aflore em mim a cultura na que fui criada. não podemos evadir-nos o tempo todo à educação que recebemos, as mensagens e pressões sociais que nos bombardeiam. o que me dói, o que me amarga (aqui sim podo ser tachada de amargada) é a ausência de auto-crítica, de questionamento dos próprios privilégios, de interesse em escuitar o que nos[outras] tenhamos que contar. dói-me sobretodo quando detecto esta ausência de reflexão e atendimento em colegas, em companheiros de luitas, em amigos. isso amarga-me muito mais que qualquer gajo que sente na minha mesa e interrompa uma das minhas conversas.

e se não escrevia, rebentava.

5 Comments so far

  1. Uxio Outeiro on Xullo 31st, 2015

    Pois como sou homem, e li, não queria deixar de dizer que sou homem e li. E mais ainda, concordei. Ainda que coincidamos pouco no espaço e no tempo, por favor, se nalguma ocasião caio numa atitude assim e tu estiveres diante, não deixes de dizer-mo, com zombaria ou sem ela.

  2. Dionísio Pereira on Xullo 31st, 2015

    Gosto de pasear polos parques en solitario cismando nisto e naquilo e sempre pensei o difícil que resulta para unha muller soa unha cousa tan sinxela e persoal. E cada vez que coincido con algunha, dou por pensar en que este mundo ben podería ser máis acolledor do que é.
    Todo o meu respecto.
    Dionísio Pereira

  3. Uxio Outeiro on Xullo 31st, 2015

    Bom, para concordar de todo com o que dizer mudaria só ‘sei de que está a falar’ por ‘faço-me uma ideia de que está a falar’. Mas de resto, sim, concordo.

  4. […] Dedoscomovermes » café amargo. Entro no café. lá esta dolo, a minha amiga. sempre combinamos nesta hora. falamos e lemos a imprensa do domingo. comentamos a semana. rejoubamos. neste momento uma tem um jornal na mão; a outra uma revista. lemos, e de quando em vez, uma comenta olha o que disse rajoi; a outra para a leitura, marca com o índice a linha em que vai e atende. um homem, desconhecido para as duas, achega-se. desarrima uma das cadeiras e senta. fala uma vez acomodado. – vou sentar com vós. vejo que estades sozinhas e aborrecidas. – quem che disse tal. – podo ficar aqui com vós? – faz o que che pete – e continuamos como antes. uma tem um jornal na mão; a outra uma revista. lemos, e de quando em vez, uma comenta olha o que disse feijoo; a outra para a leitura, marca com o índice a linha em que vai e atende. não tinhamos que reagir assim, diredes algumas. que vos custava ser amáveis. e eu ás vezes também o penso: que me custava ser amável. não estás a ser um pouco exagerada? […]

  5. Gara on Agosto 2nd, 2015

    ¿Non estaremos esaxerando as cousas.??
    Unha muller ben amueblada e intelectualmente formada, sempre estará sobrada para manter lonxe de si a impertinentes, que si que os hai, pero non todo e así. Eu discrepo, de tal afirmación, como comportamento xeral de homes. Existen bárbaros e tamén algunha que outra muller esaxerada canto a extremar con argumentos literarios, comportamentos excepcionais.
    Non xustifico nunca o relato concreto exposto aquí. De certo que é reprobable pero non e de xeral costume. Saludos.