Arquivo de agosto de 2009

videira

25 agosto 2009

parra

umha tarde daquele verám

manuel dormia a sesta

deitado sob a frescura

da parra madurecida


nom buscou o abeiro

da ondulaçom dos sarmentos

da sombra dos pámpanos

dos cachos de uva bagacenta

a ponto de nascer o vinho


era umha tarde de agosto

e quem entrava era amigo


a filha adoita na hora de calor

procurar fresco um assento

sob outras uvas em sazom

à sombra doutros pámpanos

por baixo da mesma videira


e aguarda que o pai volva

neste tempo da vendima

feito ossos cinza orgulho


e estrear ao fim o pano de loito


esta terra é toda ela um cemitério

para o que ninguém arranja flores

no dia de defuntos


por trás deste poema anda a história do bisavó de dolores, amiga minha, desaparecido no 36 em pagamento polo terrível delicto de ser músico. o seu corpo ainda nom apareceu.

a foto tirei-na de aqui.

No Condado

18 agosto 2009

cartaz-peq-092

anotade nas agendas, que andarei por com outras gentes mui interessantes.

na ponte do barco

14 agosto 2009

na ponte do barco estivemos ontem acompanhando a rogélio arca na lembrança de seu pai, assassinado no 36 junto com o companheiro anarquista secundino bugalho.

para mim foi um orgulho ler perante o monumento aos passeados, perante os sobreviventes e perante aquelas pessoas que luitam porque a memória nom devenha em esquecimento o meu poema desculpas.

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o norteamericano John Thompson, perante o monumento que marca o lugar do aparecimento dos cadáveres.

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com rogelio, o filho de francisco arca, o “socialista máis velho de cerdedo”. com eles lola, a quem agradeço o convite ao acto.

homenagem às pessoas represaliadas

11 agosto 2009

na quinta estarei em pedre (cerdedo) com a Associaçom Verbo Xido na homenagem aos represaliados da Ponte do Barco.

podedes acompanhar-nos. as vítimas bem o merecem.

a foto é de vieiros.

o clam da cicatriz

6 agosto 2009


levo as marcas de todas as idades


a linha da coitela nos pulsos

a cova cesárea da que nasceu a vida

o golpe cardeal              a machucadura

leite fervido correndo dos peitos

escarificações rituais raspando os sonhos

um dedo trilhado

pele de laranja injectada em anestésia

lostregaços de injúrias nas contras fechadas

cotelos em carne viva                 chão esfregado

geonlhos denegridos de agatunhar árvores

jugular trespassada por sanguinhosos caninos

a surpresa infibulada                a episiotomia

enruga passada a ferro

que apaga a marca da idade


mas sou costureira. e cirzo

cicatrizo as bocas de todas as feridas

pesponteio cada corte num virginal bordado


e é nessas tatuagens

que reside a resistência.

o desenho é de mirian gaisiner.