crebas

na borda do abismo

o mar vomita os restos do mundo

a mim chega tudo

robinsona

ilha tam enorme ninguém tivo

jangada de pedra e terra e lume e cimento.


encalhados nas rochas

invadidos de arneirom

agromam frigoríficos carros televisores.


na orla da praia recolho

bombas de oxigénio dentaduras postizas

meias furadas marcos de janelas.


diogénico mar           higiénico mar


enredados nos argaços aboiam

contratos-lixo comidas lixo latas de cocacola

esqueletes afogados em pateras cadáveres-lixo

restos da civilizaçom que foi minha.


na falésia me instalo

na falácia na inocência

na ingenuidade de aguardar a chegada

no vai-e-vem das ondas

das bolas de cores

das pás e os caldeiros

das molduras de peixes

para construir

novos castelos

na areia

cabanas

no ar.


a fotografia é de manuel sendón

 

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