seique em vila garcia 2

tinha pendente um encontro: com as minhas ex-companheiras do clube de leitura de vila-garcia. por segunda vez assinei no seu livro de visitas e passei a ser, com anxos sumai, das escritoras repetidoras: uma vez falamos de [de]construçom, esta sexta passada, do seique.

para não acabarmos nas tabernas, já fomos diretas a elas, e entre vinhos e tapas fomos debulhando a escrita (minha) do livro e as leituras de maite, lourdes, héctor…

falamos de arquivos, de medos, de reacções familiares, dos lugares de portaris e da jenreira, nos martizes de ceia, doutras estórias semelhantes, de denúncias possíveis e potentes silêncios e mesmo da experiência de refugiar-me numa casa de escritoras para acabar o livro.

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e como o seique lhes lembrou os baús e malas a guardar segredos familiares nos faios ou nas traseiras, prepararam para mim um presente que ainda agora me tem pampa.

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voltei à casa com todos os meus livrinhos aí empacotados.

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e pediram-me que recomendasse um livro para elas lerem no clube. eu proponho que escuitem chimamanda (que por algo preside com as suas palavras a entrada no seique), porque escuitando, quererão ler:

seique em marim

as gentes de Queremos Galego Marim disseram-me de ir-lhes à sua vila. queriam falar do seique, da memória e de literatura. e eu não lhes disse que não.

apresentou-nos, a mim e ao seique, Queta Molas, o qual já é uma enchente de orgulho, porque ela faz parte desse grupo de pessoas às que adico o livro, pois é das que

turraram contra a desmemória

em balcões de cartórios notariais,

em decretos de governo.

em apagadas vozes.

marim_seique

foi mui agradável escuitá-la falar,  narrar das suas estórias e mais estupendo ainda quando ao final do lançamento se achegou a mim e ao ouvido segredou: se eu escrevesse um livro com tudo quanto sei, faria-o assim, como o teu.

e eu digo: venha, vai, faz esse livro!!

faltou em marim a segadora maior: andrea nunes, que a temos perdida no chinês exílio migratório, mas estavam velhas amizades

marim_seique2

… e, como já é costume, depois fomos às tabernas… seique.

taberna_seique

 

seique em vila garcia

em vila garcia vivem quase todas as sánchez, quase todas as garcia e a família de tio manuel. eu temia um pouco esta parada na tourné, porque entendo que a família de tio manuel podia sentir-se danada e incomodada, que uma cousa é andar aos contos num livro que ninguém lê e outra bem distinta é andar aos contos na porta da casa de um…

mas por outra parte estavam as amigas do meu ex-clube de leitura casaescola, ás que troquei pola vida contemplativa em arcos e queriam encontro e saber mais do seique. e a família, a minha, nom a de tio manuel, que também merecia uma visita.

e fomos.

e acompanhou-nos montse fajardo, jornalista bem implicada na recuperação da memória no salnés e quem eu sabia havia entender muitas das dúvidas e viravoltas sobre a escrita e a dor. trouxe com ela uma citação bem necessária de alguém de fora sobre o desrespeito historiador à tradição oral,  mas esquecim pedir-lha. montse, fai-ma chegar, plis!!

no começo eramos pouquinhas, bem ao caso a frase, quase família, mas depois ainda nos fomos juntando… agora falta o passe especial para as companheiras do clube: fe, mela, maria, maite, héctor… havemos combinar!

falar

poucas

conversa

defrente

publico_fim

maite

 

o retrato

I. o retrato

o tio manuel aparece na desacompanhada foto de família que conservava a minha avó. o tio manuel era um dos seus irmãos mais velhos, sendo ela a mais nova. eram treze, fora os morridos. por isso, na fotografia, a minha avó está aos pés do meu bisavô e conta só dous aninhos de idade. o tio manuel aparece direito e teso, num dos cantos exteriores do papel. ainda que os meus bisavôs repousam no centro da imagem, como em real trono, quem preside o quadro é o tio manuel. porque tem porte. e acompanha essa presença majestosa de fato branco e chapéu branco e sapatos brancos. tal se fosse um indiano. o resto de irmãos e irmãs, até treze, fora os morridos, e mesmo meus bisavôs, em seu trono real, parecem os criados pobres do tio manuel, os caseiros que lhe lavram os campos, as lavandeiras que lhe clareiam a prístina roupa, as amas de cria que amamentaram a minha avó.

sempre ao serviço do senhor.

II. as armadilhas da memória.

quando dei a ler o seique a meu pai o seu primeiro comentário, de entre as inexactidões que ele via no livro,  foi para o texto do retrato.

-e ló, quanto tempo há que não ves a foto de portaris?

– anos.

-mas não a queres para revisar a descrição?

-que há de mau na descrição? eu contei a foto tal qual como a recordo.

-tio manuel não vai de branco. nem tem chapéu branco, nem fato branco. só os sapatos.

[silêncio dos incómodos]

eu já argalhara o livro. já escolhera a brancura das roupas do tio manuel como um dos recursos reiterativos no texto para lhe dar unidade. e não ia de branco. já o tinha igualado ao clargable. sempre de branco. que fazer? de conhecer o documento, a gente ia pensar que todo o seique era fantasioso e não era essa a minha intenção. lembrei o xurxo marinho e os seus contos neuro-científicos e isso de que os nossos cérebros constroem a realidade. o meu construíra um retrato diferente do papel existente. ai, a papelada.

decidim deixar o texto tal qual e não permitir-vos ver, nunca, nunca, jamais, o retrato.

mas afinal, como muitas das conversas sobre o seique vão para o campo da memória, da verdade, das certezas e incertezas, acabei por contar, mais duma vez, esta anedota, como mostra da dificuldade para edificarmos Verdades Absolutas.

e pensei em partilhar aqui a fotografia familiar para as pessoas que assistis aos lançamentos (e para as que não, ainda que não mereceis 😉 ). e esquecim.

até que ontem, o tio rúbio, descobriu que ele não tinha este recordo familiar.

portaris

III. a verdade.

após ler o seique pensando no desenho da capa, rosa perguntou-me:

-e poderia ver o retrato que descreves?

-mmmmmm, ains! -ia descobrir a minha falta…. eu não queria mostrar. e argumentei: quigem escrever de memória, ighual tio manuel não vai de branco branco, a memória nunca é cento por cento realidade, tu já sabes, etc. etc.

e enviei.

-pois sim que tem porte o tio manuel!, foi a resposta de rosa.

seguinte encontro: vila garcia

vila_garcia

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