isso é o amor

@s amig@s da palavra comum pediram-me um favor:

-ouh, susana, visiona o clip do último tema do caxade e escreve qualquer cousa para a revista.

eu gosto do caxade e da palavra comum, e visionei (uma outra vez, que já tinha visto -isso não contei ao mensageiro).

e foi assim tal qual. a tenrura e ledícia que transmitem a música e as imagens trougeram-me à memória marina de ferrim, vizinha rideira e colorida (como boa costureira) que tenramente contava dos seus amores moços com pepe, que continuava a ser o seu velho amor. e escrevim para a palavra comum, para caxade, para eles, marina e pepe, e para bárbara, a neta, este poema, que partilha artigo com outras leituras.

e isso é o amor

visionando a verbena

do caxade

acordou-me

que marina ia de socos

e balouçava na mão

limpos sapatos de salto

brancos

e guardava os socos

tão tosquinhos e de madeira

entre as pedras de um valado

e calçava os brancos sapatos

de ponta descoberta

 

[sandálias ló, dizia eu]

cala e escuita,

que este conto é nosso:

 

e luzia unlhas pintadas

e botava a baila com pepe

e outra baila e uma rumba

e três carinhos clandestinos

e mudava sapatos [sandálias]

por socos e voltava ao carreiro

de lama com a música e os beijos

ainda a dançar

no rosado das unlhas dos pés

abrigados na camurça dos socos.

 

e acordou-me

que uma noite

alguém levou os socos voaram

ou marina esqueceu o agocho

ou pepe escondeu para durar a festa

e houve de fazer o caminho todo

de curantes ao fojo

com os sapatos da mão

para não estropiar-lhes a brancura

e os pés descalços

e as unlhas rosas

e a música e os beijos

e o amor todo a dançar

na frescura da lama.

 

acordou-me isso.

 

 

seique em ribeira

umplugged, quer dizer, em formato íntimo:

seique_ribeira

irmandadas

cartaz-LilasIrmandades

quando nasceu a possibilidade de comemorar o centenário das Irmandades da Fala eu mostrei curiosidade polo papel das mulheres nesse movimento.

– não há quase, disse-me mais de um especialisto. alguma na crunha, só a mulher de ánxel casal em santiago.

pois não comemoro, ló, pensei para mim. fartinha estou de eventos pirolos.

só que não é verdade. não é certo que não haja mulheres. o que não há, como diz encarna otero, é quem queira vê-las. como sempre, falta documentação e falta quem deixe e saiba ler a que existe. mas por toda a parte há pegadas de um movimento feminista incipiente atento ao que acontecia no campo internacional.

por isso aceitei comemorar, esta vez sim, as irmandadas, convidada pola comissão de história da gentalha do pichel.

levei este textos, nascidos do mergulho urgente em redes e papeis. vão aqui, em documento à parte para que não fagam eterna esta entrada e podades re-utilizar.

verbo na arria

573309142dead-verbonaarria

quando merquei as pedras caídas que hoje são a minha casa fui bem recebida na aldeia de arcos. numa das visitas fui levada por um par de vizinhos a ver algo que consideravam especial: achegamo-nos à fonte do fundo da aldeia, essa que tenho quase na porta, e mostraram-me, orgulhosos, a placa que a preside, ainda:

– ighual é a única que que “eles” não puderam destragar.

a placa levava uma data: 1932. a fonte era republicana e “eles”, os destrutores fracassados, eram os fascistas.

ser recebida assim na aldeia em que decidim viver foi fermoso.

quando fui convidada a participar no projeto de homenagem a Xohán Xesús González, ao que cheguei tarde mal e arrastadinha, não duvidei. o poema tinha que ser para a fonte. e a orghulhosa aghora sou eu.

arcos de arriba

¡Ai das que levan na fronte unha estrela!
¡Ai das que levan no bico un cantar!

Manuel Curros Enríquez

a gata que fez casa no alpendre

abandona as criancinhas

de quando em vez

e caminha calma até a fonte das estrelas

por botar um grolo de água fresca.

a ela tanto lhe têm as estrelas

e a cantaria da fonte

ela só quer botar um grolo apagar a sede

entanto vigia o mínimo uivo

que nasça do fundo da palheira.


um tritão gostou da fonte das estrelas

para viver e desovar e hibernar

ele nada sabe da existência das estrelas

cinzeladas na orla exterior do cano

tão primorosamente.

ele permanece absorto e atento

às vibrações na água

das lentas pisadas gatunas

por se acovilhar apressado

entre as fendas da fonte das estrelas.


rosa coloca quando é o tempo

na fonte das estrelas

sementes de acelgas de leitugas

por ver se abrocham e crescem.

as acelgas desconhecem as estrelas

[as leitugas já nem contam

de pouco espelidas]

elas sô pensam em botar raízes

e gozar do sol           astro único do seu interesse.


eu sim sei

que são essas estrelas da fonte.


sei que as mãos que as talharam

eram de um canteiro

morto passeado assassinado

nas estremas dos montes que separam

a fonte                           das estrelas.


e porque o sei

de quando em vez

se o dia é claro e sem chuvieiras

ainda tendo máquina de lavar

busco um farrapo uma sacola de lona

as chirucas ençoufadas em lama

e vou esfregá-las nas lousas do peitoril

e eslavo-as na água que canta no bico

da fonte das estrelas.


porque aprendim da gata do tritão das acelgas

[mesmo das leitugas que não são espelidas]

que a melhor homenagem que podemos fazer

a mortas passeadas assassinadas

é continuar a viver a vida.


isso sim

com a clara consciência

de que em 36 alguém morreu

por cinzelar

  para nós

estrelas.

 

essa olhada

kemper1

E vous parlez galicien?

Falamos.

Quem perguntou foi a adjunta do vereador de Landerne, Breizh, durante a recepção que ofereceram ao alunado do nosso centro que visitou essa vila num intercâmbio escolar. Era uma mulher pequena, duns sessenta anos, que mostrava interesse por essa outra fisterra assim tão desconhecida.

Lamentablement je ne parle pas breton. Ma mère le parlait et je le comprends. Mais à nous déjà ne nous l’ont pas enseignés. Et les élèves, aussi parlent galicien?

Falan.

Entre ils aussi?

Também.

E uma olhada rebordante de tenrura virou para onde o nosso grupo de adolescentes andava mais preocupado de rir e fazer brincadeiras que de atender diplomacias.

Nos enfants déjà ne parlent pas breton. Et ceux qui l’apprennent dans le collège ne l’usent pas entre ils, lamentou.

Estavamos num ato cerimonial, local mas cerimonial. E o meu francês é de opentrad. A cousa não dava para mais.

E guardei para mim as outras informações. Que em nove anos que levo na Arouça passei de ter um 90% de alunado galego-falante a ter um 90% com o galego como língua oculta. Que percebe, sim. Que fala, sim. Mas que evita, carregando com prejuízos que eu acreditava superados. Ocultei que sim, que som elEs, os nossos alunOs, os que usam a língua, e que são elas, as moças, as que abandonam, levadas por ditados de modas não escritas segundo as quais mulher galego-falante é menos mulher. Ocultei que este país é como um queijo de gruyère (Isabel Rei, roubo a comparação) com zonas nas que o galego está completamente desaparecido da vida quotidiana. Ocultei que a língua está a ser submetida a um processo de hibridação tal com o castelhano que perde toda a sua riqueza e diversidade.

Sobretudo, ocultei que o nosso país está a dar esse passo que ela tão bem resumiu: o da ruptura geracional. Que as crianças já não aprendem a língua das suas famílias, como a ela aconteceu. Ocultei que eu via nas suas palavras o plausível futuro da nossa língua: como estamos a viver esse momento em que uma geração deixa de falar embora perceba e a seguinte já nem percebe.

Ocultei todo isso. Não era o lugar. Não era o momento. Para que decepcionar a mulher que me fez o presente mais precioso de toda a semana?

Essa olhada.

Essa olhada de tenrura que dirigiu ao nosso alunado adolescente, o mesmo que nem a percebeu, mais preocupado de rir que de atender diplomacias, fez-me sentir orgulhosa. E fez-me ver que contamos com a arma mais eficaz para recuperar a língua: falamo-la. Entre nós. Falam-na muitas das nossas adolescentes. Mesmo entre elas. Falam-na muitas das nossas crianças. Com as avós. Com as tias. Entre elas.

Possuímos uma língua viva. Todas as nossas luitas devem partir dessa base: ainda está viva. Deixemos os velórios e os lamentos e celebremos a vida.

Páxina seguinte »