verbo na arria

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quando merquei as pedras caídas que hoje são a minha casa fui bem recebida na aldeia de arcos. numa das visitas fui levada por um par de vizinhos a ver algo que consideravam especial: achegamo-nos à fonte do fundo da aldeia, essa que tenho quase na porta, e mostraram-me, orgulhosos, a placa que a preside, ainda:

– ighual é a única que que “eles” não puderam destragar.

a placa levava uma data: 1932. a fonte era republicana e “eles”, os destrutores fracassados, eram os fascistas.

ser recebida assim na aldeia em que decidim viver foi fermoso.

quando fui convidada a participar no projeto de homenagem a Xohán Xesús González, ao que cheguei tarde mal e arrastadinha, não duvidei. o poema tinha que ser para a fonte. e a orghulhosa aghora sou eu.

arcos de arriba

¡Ai das que levan na fronte unha estrela!
¡Ai das que levan no bico un cantar!

Manuel Curros Enríquez

a gata que fez casa no alpendre

abandona as criancinhas

de quando em vez

e caminha calma até a fonte das estrelas

por botar um grolo de água fresca.

a ela tanto lhe têm as estrelas

e a cantaria da fonte

ela só quer botar um grolo apagar a sede

entanto vigia o mínimo uivo

que nasça do fundo da palheira.


um tritão gostou da fonte das estrelas

para viver e desovar e hibernar

ele nada sabe da existência das estrelas

cinzeladas na orla exterior do cano

tão primorosamente.

ele permanece absorto e atento

às vibrações na água

das lentas pisadas gatunas

por se acovilhar apressado

entre as fendas da fonte das estrelas.


rosa coloca quando é o tempo

na fonte das estrelas

sementes de acelgas de leitugas

por ver se abrocham e crescem.

as acelgas desconhecem as estrelas

[as leitugas já nem contam

de pouco espelidas]

elas sô pensam em botar raízes

e gozar do sol           astro único do seu interesse.


eu sim sei

que são essas estrelas da fonte.


sei que as mãos que as talharam

eram de um canteiro

morto passeado assassinado

nas estremas dos montes que separam

a fonte                           das estrelas.


e porque o sei

de quando em vez

se o dia é claro e sem chuvieiras

ainda tendo máquina de lavar

busco um farrapo uma sacola de lona

as chirucas ençoufadas em lama

e vou esfregá-las nas lousas do peitoril

e eslavo-as na água que canta no bico

da fonte das estrelas.


porque aprendim da gata do tritão das acelgas

[mesmo das leitugas que não são espelidas]

que a melhor homenagem que podemos fazer

a mortas passeadas assassinadas

é continuar a viver a vida.


isso sim

com a clara consciência

de que em 36 alguém morreu

por cinzelar

  para nós

estrelas.

 

essa olhada

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E vous parlez galicien?

Falamos.

Quem perguntou foi a adjunta do vereador de Landerne, Breizh, durante a recepção que ofereceram ao alunado do nosso centro que visitou essa vila num intercâmbio escolar. Era uma mulher pequena, duns sessenta anos, que mostrava interesse por essa outra fisterra assim tão desconhecida.

Lamentablement je ne parle pas breton. Ma mère le parlait et je le comprends. Mais à nous déjà ne nous l’ont pas enseignés. Et les élèves, aussi parlent galicien?

Falan.

Entre ils aussi?

Também.

E uma olhada rebordante de tenrura virou para onde o nosso grupo de adolescentes andava mais preocupado de rir e fazer brincadeiras que de atender diplomacias.

Nos enfants déjà ne parlent pas breton. Et ceux qui l’apprennent dans le collège ne l’usent pas entre ils, lamentou.

Estavamos num ato cerimonial, local mas cerimonial. E o meu francês é de opentrad. A cousa não dava para mais.

E guardei para mim as outras informações. Que em nove anos que levo na Arouça passei de ter um 90% de alunado galego-falante a ter um 90% com o galego como língua oculta. Que percebe, sim. Que fala, sim. Mas que evita, carregando com prejuízos que eu acreditava superados. Ocultei que sim, que som elEs, os nossos alunOs, os que usam a língua, e que são elas, as moças, as que abandonam, levadas por ditados de modas não escritas segundo as quais mulher galego-falante é menos mulher. Ocultei que este país é como um queijo de gruyère (Isabel Rei, roubo a comparação) com zonas nas que o galego está completamente desaparecido da vida quotidiana. Ocultei que a língua está a ser submetida a um processo de hibridação tal com o castelhano que perde toda a sua riqueza e diversidade.

Sobretudo, ocultei que o nosso país está a dar esse passo que ela tão bem resumiu: o da ruptura geracional. Que as crianças já não aprendem a língua das suas famílias, como a ela aconteceu. Ocultei que eu via nas suas palavras o plausível futuro da nossa língua: como estamos a viver esse momento em que uma geração deixa de falar embora perceba e a seguinte já nem percebe.

Ocultei todo isso. Não era o lugar. Não era o momento. Para que decepcionar a mulher que me fez o presente mais precioso de toda a semana?

Essa olhada.

Essa olhada de tenrura que dirigiu ao nosso alunado adolescente, o mesmo que nem a percebeu, mais preocupado de rir que de atender diplomacias, fez-me sentir orgulhosa. E fez-me ver que contamos com a arma mais eficaz para recuperar a língua: falamo-la. Entre nós. Falam-na muitas das nossas adolescentes. Mesmo entre elas. Falam-na muitas das nossas crianças. Com as avós. Com as tias. Entre elas.

Possuímos uma língua viva. Todas as nossas luitas devem partir dessa base: ainda está viva. Deixemos os velórios e os lamentos e celebremos a vida.

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tinha pendente um encontro: com as minhas ex-companheiras do clube de leitura de vila-garcia. por segunda vez assinei no seu livro de visitas e passei a ser, com anxos sumai, das escritoras repetidoras: uma vez falamos de [de]construçom, esta sexta passada, do seique.

para não acabarmos nas tabernas, já fomos diretas a elas, e entre vinhos e tapas fomos debulhando a escrita (minha) do livro e as leituras de maite, lourdes, héctor…

falamos de arquivos, de medos, de reacções familiares, dos lugares de portaris e da jenreira, nos martizes de ceia, doutras estórias semelhantes, de denúncias possíveis e potentes silêncios e mesmo da experiência de refugiar-me numa casa de escritoras para acabar o livro.

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e como o seique lhes lembrou os baús e malas a guardar segredos familiares nos faios ou nas traseiras, prepararam para mim um presente que ainda agora me tem pampa.

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voltei à casa com todos os meus livrinhos aí empacotados.

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e pediram-me que recomendasse um livro para elas lerem no clube. eu proponho que escuitem chimamanda (que por algo preside com as suas palavras a entrada no seique), porque escuitando, quererão ler:

seique em marim

as gentes de Queremos Galego Marim disseram-me de ir-lhes à sua vila. queriam falar do seique, da memória e de literatura. e eu não lhes disse que não.

apresentou-nos, a mim e ao seique, Queta Molas, o qual já é uma enchente de orgulho, porque ela faz parte desse grupo de pessoas às que adico o livro, pois é das que

turraram contra a desmemória

em balcões de cartórios notariais,

em decretos de governo.

em apagadas vozes.

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foi mui agradável escuitá-la falar,  narrar das suas estórias e mais estupendo ainda quando ao final do lançamento se achegou a mim e ao ouvido segredou: se eu escrevesse um livro com tudo quanto sei, faria-o assim, como o teu.

e eu digo: venha, vai, faz esse livro!!

faltou em marim a segadora maior: andrea nunes, que a temos perdida no chinês exílio migratório, mas estavam velhas amizades

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… e, como já é costume, depois fomos às tabernas… seique.

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seique em vila garcia

em vila garcia vivem quase todas as sánchez, quase todas as garcia e a família de tio manuel. eu temia um pouco esta parada na tourné, porque entendo que a família de tio manuel podia sentir-se danada e incomodada, que uma cousa é andar aos contos num livro que ninguém lê e outra bem distinta é andar aos contos na porta da casa de um…

mas por outra parte estavam as amigas do meu ex-clube de leitura casaescola, ás que troquei pola vida contemplativa em arcos e queriam encontro e saber mais do seique. e a família, a minha, nom a de tio manuel, que também merecia uma visita.

e fomos.

e acompanhou-nos montse fajardo, jornalista bem implicada na recuperação da memória no salnés e quem eu sabia havia entender muitas das dúvidas e viravoltas sobre a escrita e a dor. trouxe com ela uma citação bem necessária de alguém de fora sobre o desrespeito historiador à tradição oral,  mas esquecim pedir-lha. montse, fai-ma chegar, plis!!

no começo eramos pouquinhas, bem ao caso a frase, quase família, mas depois ainda nos fomos juntando… agora falta o passe especial para as companheiras do clube: fe, mela, maria, maite, héctor… havemos combinar!

falar

poucas

conversa

defrente

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maite

 

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