as virtudes das eleições

[ontem desabafei no féisbu e escrevim este texto. houve muita gente que gostou e partilhou. coloco aqui, para as que passedes do efe azulão)

calculo que foi nos comícios de 1996, vistas as protagonistas. eu andava nos 22 anos. fui votar. ao chegar à escola encontrei-me com virtudes, vizinha.
– que bem, vem comigho e ajudas-me a colher o voto, disse-me.
eu era uma moça comportadinha e cumpridora das leis.
– não podo, virtudes, tens que ir ao presidente da mesa e que che ajude ele.
– eu esse não quero que me ajude. quero que venhas ti. não sei ler. tens que dizer-me qual é o papel que tenho que colher.
eu era uma moça comportadinha mas sentim que virtudes não queria admitir diante do presidente que era analfabeta. acompanhei-na. como era comportadinha, fui raivada o tempo todo que caminhamos pensando em ter que colher para ela a papeleta do pp. não, não era quem de enganá-la e dar-lhe outra. uma oportunidade perdida. um voto menos que não me sentia quem de provocar. era comportandinha, lembrade.
chegadas à mesa onde pairavam as papeletas, virtudes puxou do meu braço, achegou a boca à minha orelha e sussurrou, mui baixinho:
– dá-me a de anguita.
colhim-lha sorrindo e contenta da grande lição que acabava de receber, de balde, da minha vizinha analfabeta.

eu aprendim isso com 22 anos. outras muitas, muitas das que comentam os resultados de ontem. muitas mesmo universitárias que falam com desprezo das “aldeias de ourense”, precisam duma virtudes a zoscar-lhes um lostreghaço inteletual (e político).

a da foto não é virtudes, mas uma vizinha de virgílio vieitez que seguro viveu os tempos mesmos que virtudes. e eu não podo deixar de imaginar que dura houve de ser a vida para uma comunista numa aldeia galega e no franquismo ao lembrar esta anedota e visionar estas imagens. #umrespeito

 

virxilio-vieitez-1

a capirota

o seique levou-me a marim há messes e daquela já me trouxe ao dia de hoje, pois nasceu o compromisso de acompanhar à Associação para a Recuperación da Memória Histórica de Marín na sua homenagem anual às vítimas da repressão fascista e a ditadura.

o lugar, o poço da revolta, em baguim, mogor.

mogor1a

um espaço fermoso, com as ilhas onça e ons ao alcanço da vista e a praia de aguete aos pés. um espaço de horror, utilizado em 36 para dar o tiro de graça àquelas que incomodavam ao novo regime.

levei dous velhos poemas, a carapuchinha (quiçás um dos meus preferidos dos meus) e a lavandeira, os dous do livro aquiltadas.

e contou-me queta otero molas, ao telefone, a estória de carmen a capirota, e, amedida que ia contanto, mais se me parecia á bisavó elena, que também fora lavandeira, que também atendera sozinha uma criança, que também era mulher forte e de carácter. e escrevim este poema unindo as duas mulheres, que de viver na mesma vila, haviam partilhar água de rio e luitas escondidas.

mogor_recitando1

revolta e lavandeira

 

era pequena como uma pulga

lembra-se levada, elevada,

da mão da avó elena,

anda, vem, que lhe hão dizer

a uma velha a uma criança

que nos hão fazer

eram os anos cinquenta e mamã

quase nem lembra

anda, vem, e ajudas-me

a retorcer os panos.

 

recorda mamã que a avó elena

tinha um buscalavida de mal nome

porque esfregando alheias roupas

dera em criar a filha nem de arrimo

nem das silveiras mas carminha

 

shhhhh, que ninguém escuite

aí faziam os alemães os canões

os da guerra grande          a outra que não a nossa

shhhhh, não digas que che disse

 

lembra a avó elena

e não lembra um avô

sozinha andou a velha

com mamã levada

voada             da mão

 

lembra o seu lugar no rio do com

lavandeira respeitada entre as iguais

com peitoril em pedra

direito ao lago        água em remanso

e mamã ajudava a estender os panos

na erveira capelo capirote

a proteger dos falares       da chuva

shhhhh, há roupa a clareio

e mamã não entendia tanto segredo

 

nunca ninguém matou a bisavó elena

no poço da lage      no de santa luzia

mesmo sabendo-a afouta e algo roja

nunca ninguém lhe pegou um tiro

após ter violentado o seu corpo

de maneiras outras

antes de violentar-lho

em exposição pública

 

e mamã pouco lembra

era pequena como uma pulga

mas repassa de leve

as mãos com as gemas dos dedos

quando fala da avó elena

porque ainda sente na conca

o engurrado tacto e fervente

da avó elena a segurar-lhe

os tristes tempos da posguerra

 

o engurrado tacto e fervente

de uma avó

 

isso lhe arrebataram

às netas da capirota.

 

 

mogor, 18 de setembro de 2016, 80 anos após.

 

 

 

seique em ribeira

e fomos a ribeira acompanhadas da mala com todos os livros que dera o seique e mesmo o caderno onde o seique foi sendo pensado.

e fomos diretamente à taberna, que é o melhor lugar para falar de livros. e juntamo-nos por volta das vinte pessoas. e todas leramos o seique!!

taberna_ribeira

e falamos. tanto. do tio manuel, da guerra, de liste e valência, das casualidades da vida, do secreto silêncio que paira nas casas, do medo que chega ao hoje, do tio manuel e de tia ubaldina.

e do leixaprém.

e trouxemos com nós, na mala, as palavras e os presentes das leitoras barbançãs.

presente_ribeira

obrigada!

 

 

boina style

Começaram as moças do Clube da Língua do IES Marco do Camballhão, lá polas Cruzes. Decidiram pór de moda novamente a boina, o pucho de aldeia de sempre. E pediram às amigas, vizinhas e conhecidas uma foto tocadas com boina. E enredaram ás moças da EASD Mestre Mateo, que desenharam alfaias para acompanhar as boinas, e decidiram argalhar uma sessão de fotos para visibilizar as boinas, e pediram a artistazas do mundo mundial que posaram, para elas, com boina e alfaias.

E entre as artistazas estava eu, seique.

E figem a foto sem saber mui bem para que era, porque do que gostava era de todo este enredo de redes e comunidade em que germolou aquela ideia pequeninha, seique,  das moças das Cruzes.

E pediram-me um poema e escrevim. Depois houve de ser reduzido para colher na foto (nom sei por que, com o grande que é 😉 ) e vai aqui completo.

boina

quando menina

sempre que via o che

fotografado por korda

ou a espilida da bonnie

a fugir do banco

com tanto dinheiro

eu sabia

juro que sabia

que também

coma nós

falavam galego.

E só depois, ao final de todo este enredo, soubem que havia ocupar as ruas, as pistas, as paradas, com o meu sorriso emarcado em blancura.

boina

Demasiado tarde para matar ninguém…

 

isso é o amor

@s amig@s da palavra comum pediram-me um favor:

-ouh, susana, visiona o clip do último tema do caxade e escreve qualquer cousa para a revista.

eu gosto do caxade e da palavra comum, e visionei (uma outra vez, que já tinha visto -isso não contei ao mensageiro).

e foi assim tal qual. a tenrura e ledícia que transmitem a música e as imagens trougeram-me à memória marina de ferrim, vizinha rideira e colorida (como boa costureira) que tenramente contava dos seus amores moços com pepe, que continuava a ser o seu velho amor. e escrevim para a palavra comum, para caxade, para eles, marina e pepe, e para bárbara, a neta, este poema, que partilha artigo com outras leituras.

e isso é o amor

visionando a verbena

do caxade

acordou-me

que marina ia de socos

e balouçava na mão

limpos sapatos de salto

brancos

e guardava os socos

tão tosquinhos e de madeira

entre as pedras de um valado

e calçava os brancos sapatos

de ponta descoberta

 

[sandálias ló, dizia eu]

cala e escuita,

que este conto é nosso:

 

e luzia unlhas pintadas

e botava a baila com pepe

e outra baila e uma rumba

e três carinhos clandestinos

e mudava sapatos [sandálias]

por socos e voltava ao carreiro

de lama com a música e os beijos

ainda a dançar

no rosado das unlhas dos pés

abrigados na camurça dos socos.

 

e acordou-me

que uma noite

alguém levou os socos voaram

ou marina esqueceu o agocho

ou pepe escondeu para durar a festa

e houve de fazer o caminho todo

de curantes ao fojo

com os sapatos da mão

para não estropiar-lhes a brancura

e os pés descalços

e as unlhas rosas

e a música e os beijos

e o amor todo a dançar

na frescura da lama.

 

acordou-me isso.

 

 

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