17 de agosto: atila na galiza

atila_fundo_mar

não sei em que pensava castelao quando desenhou aquela lámina que intitulou no fondo do mar.

aparecem vários cadáveres já com as faces comestas mas com destragadas roupas que os fam humanos reconhecíveis. e no centro da cena, presidindo-a, um inchado corpo querendo aboiar, a luitar contra os pandulhos que, amarrados ao seu pescoço com um cabo, pretendem corrigir as arquímedas leis. por cima do corpo, mais perto da tona de água, do canto superior do papel, as xoubinhas nadam indiferentes.

disque a santiago otero, pajares, o atiraram uma vez ao mar. disque aboiou na areia da secada. e disque alguém foi abafando, de andar às alancadas, dar aviso à família, para o poderem soterrar.

disque o vingativo fascio não podia consentir tal dose de piedade. e disque o embarcaram novamente, mortinho como estava, não sabemos se em dorna, se em bote polveiro, se em lancha jeiteira. disque lhe amarraram pandulhos levando um cabo ao seu frio pescoço e disque o fondearam, disque, na punta do aghiuncho.

onde ainda hoje nadam indiferentes argénteas xoubas.

manuel maria não é tia

no Novas da Galiza pediram, para o seu último número, a minha opinião sobre a escolha de autor para o Dia das Letras Galegas 2016 e eu escrevi:

manuel_maria

Manuel Maria não é tia

Manuel María, é tío ou é tía?

Os da ría

Escolhem Manuel Maria para confundir-nos e, na confusão, calar-nos. Escolhem o Poeta Nacional, que dizem alguns, para que as maiúsculas nos aturdam e narcotizem: e terás algo que dizer desta escolha, após à filgueirada? Manuel Maria, com biografia exemplar, implicação social e cultural na base, na raíz, boa qualidade literária, obra avonda e variada, nada suspeito de conivências regimónicas… mesmo com nós, as inadaptadas reintegrantes, simpatizata.

Sempre foram os bufões da corte que metiam o dedo no olho do real, apampado a admirar luzes cegadoras. Não temem os bobos maiúsculas e nomes compostos. E eu, meio boba, mulher inteira, dou com a pergunta em satírica cantiga: Manuel Maria é tio ou é tia?

Não há lugar a ambiguidades queer, a indefinições identitárias: Manuel María não é tia. De sê-lo, estariamos a comemorar Carvalho Calero, que também não era tia, embora reintegrata.

Alguém pensará que sendo reintegrante, embora um algo misógino, nunca Carvalho Calero será protagonista do Dia das Letras Galegas, mas a realidade é diáfana: ficou por diante de Xela Arias nas votações. Porque se algo é mais alheio à Real Academia Gallega que o ene agá ou o ce cedilhado somos as mulheres.

Já o ano passado aprendemos, a imitação daquele antes rota que roja, que para a RAG, vai antes um franquista que uma mulher. Mas também aprendemos que a sociedade detecta melhor a desmemória que a a discriminação de gênero.

Como Manuel leva um María de segundo e a UPG na biografia, já não doem prendas. Já a RAG é boazinha, já não é essa instituição que há um ano defendia as elites desde um eruditismo asético, nem aquela que não sabia mirar o futuro, nem aqueloutra compracente com Núñez Feijoo. Já a MNL não tem nada a dizer, nem Manuel Rivas, nem Fran Alonso, nem Bernardo Máiz. Já todas podemos dar salvas de palmas e admirar o acerto da RAG, essa instituição que, de súbito, escuita o clamor social que há um ano silenciavam os grossos muros da rua Tabernas.

Porque não é problema que Manuel María não seja tia. Nem que levemos um tanteio de 52-3, malheira esmagadora.

A mim dói-me muito este silêncio de hoje. Esta sensação de que já está tudo arranjado. De que Manuel Maria é um pedido de desculpas após o filgueiraço e que sim, que já, que o que passou passado é, e todos amigos e não andemos às voltas.

Porém, eu sei: Manuel Maria não é tia.

 

moncha

hoje hai 40 anos que ramón reboiras foi assassinado pola polícia franquista no ferrol, quando eu já nascera e a ditadura seique era ditabranda. e hoje lembramo-lo em imo, dodro, no cemitério onde repousa feito cinsa.

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quando alberte momán me convidou a participar na homenagem que argalhou o movimento galego ao socialismo eu tinha fresca a leitura deste artigo de bautista álvarez e não me saia da cabecinha (as cabecinhas são elas assim, moem no que lhes peta) entanto pensava em ramón reboiras.  e assim nasceu este poema, que partilha livro homenagem com textos de carmen blanco, claudio rodríguez fer, darío xohan cabana, igor lugris, isidro novo, marta dacosta, ramiro vidal alvarinho, teresa moure e verónica martínez delgado.

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moncha

de ramón reboiras nascer moncha
aprisonada estaria ao bar noia
vinhos comidas café exprés
levaria no marmóreo mesado
com lapis ajustadas contas 
das cuncas os chopinhos as olhadas
lascivas as insinuações os furtivos
roçamentos na adolescente pele
de monchinha nena menina e moça

de ramón reboiras nascer moncha
rebelaria-se à condeia dos vinhos e comidas
por livre estudaria nas noites leis proibidas 
juntaria-se com outras moças e criaria uma revista
 des-cosendo que daria numa saia 
e na festa da palavra silenciada
participaria das greves e reclamaria 
mesmos direitos mesmos salários
para as companheiras das fábricas
o reparto dos cuidados familiares 
o direito ao divórcio ao aborto 
mesmo a ter contas no banco [do capital].

de ramón reboiras nascer moncha 
pediria a palavra na assembleia
para advertir aos camaradas 
não é minha inimiga a mulher castelhana
mas o camarada que larga olhadas
lascivas insinuações furtivos
roçamentos na juvenil pele
de monchinha nena menina e moça
e mesmo o camarada obstinado
nas prioridades da revolta na necessidade
de calar costureirinhas deixar falar quem sabe 
e venha faz algo põe um café.

de ramón reboiras nascer moncha
um comité clandestino chegaria à conclusão 
dos tempos não ser chegados 
de estar em perigo a luita obreira 
a libertação da pátria as acções de resistência.

de ramón reboiras nascer moncha
uma bala perdida acabaria na sua caluga
simulando
um assalto policial

moncha reboiras, heroína nacional.

 

apiário

abelha

as mulheraças que levam a editora apiário pediram-me um texto sobre as abelhas e saiu este…

 

quanto mais a monte tenho o jardim

mais dele gostam as abelhas [e as ovelhas também].

as vizinhas censuram-lhe a estética.

empresto-che a desbroçadora?

[google traductor: a ver se desbroças!]

essa casa assim não loze não brilha.

de limpares afloraria elegante o pátio.

ai, onde esté uma roseira uma petúnia.

e cada vez que saio ao jardim

foucinha na mão     luvas na pele

disposta a ceifar estrugas fiunchos

mentastros nêvodas invasoras

um nuveiro antófilo achega-se-me

em baila mais que em revolta.

não são agressivas as abelhas

não aguilhoam nem avançam enxamiadas.

botam a sua dança e eu percebo

nos giros na velocidade na orientação

respeito do sol [e do castro]

que falam para mim. comigo.

gostam do meu jardim a monte.

saborosos meles e alegres nascem dele

[dizem elas. eu não sei do trobo].

já poucos lugares [aí o seu lamento é grande]

restam com estrugas fiunchos

mentastros nêvodas invasoras.

a zunida argumentação vence[-me].

eu abandono foucinha luvas

descobro a pele boto mão

das más flores mentoladas

gozo do arrecendo e de manter

o jardim a monte.

na aldeia ganho sona de preguiceira [e poeta].

 

 

A imagem roubei-lha a Eiti Kimura e tirei-na de aqui.

café amargo

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entro no café. lá esta dolo, a minha amiga. sempre combinamos nesta hora. falamos e lemos a imprensa do domingo. comentamos a semana. rejoubamos.

neste momento uma tem um jornal na mão; a outra uma revista. lemos, e de quando em vez, uma comenta olha o que disse rajoi; a outra para a leitura, marca com o índice a linha em que vai e atende.

um homem, desconhecido para as duas, achega-se. desarrima uma das cadeiras e senta. fala uma vez acomodado.

– vou sentar com vós. vejo que estades sozinhas e aborrecidas.

 

– quem che disse tal.

 

– podo ficar aqui com vós?

 

– faz o que che pete – e continuamos como antes. uma tem um jornal na mão; a outra uma revista. lemos, e de quando em vez, uma comenta olha o que disse feijoo; a outra para a leitura, marca com o índice a linha em que vai e atende.

passados uns minutos o homem ergue-se, vai para o balcão e comenta algo com o camareiro, partilhando ambos risadinhas e olhadas cara a nós. será o de sempre. bordes, malfolhadas, lésbicas, amargadas, reprimidas, feias. o que escuitamos quando rejeitamos uma conversa, uma dança ou um sorriso que se nos supõem obrigatórios. porque temos sorte de que um gajo queira sentar e falar com nós.

podiamos erguer-nos (uma de nós, as duas), dirigir-nos ao senhor e explicar-lhe quatro cousas. imagino a surpresa geral: as pessoas a levantar a vista das suas conversas e olhar para essa(s) histérica(s) que abronca a um homem. porque provavelmente, embora estando no café, ninguém reparara no acontecido.

não tinhamos que reagir assim, diredes algumas. que vos custava ser amáveis. e eu ás vezes também o penso: que me custava ser amável.

não estás a ser um pouco exagerada? um homem tentou flirtear com vós, não teve sucesso, já leva nisso a penitência. a que lhe dás mais voltas?

isso não é machismo, é má educação (como se fossem incompatíveis); pode ser. porém, havia mais mesas ocupadas e a nossa era a única na que não havia homens.

não atuariades assim se fosse um moço gharrido e fermoso. quem sabe. mas estou certa de que se um moço gharrido e fermoso interrompe a minha vida sem eu lhe dar pé, também me incomodo.

para que vas a um local público, se não queres interatuar com desconhecidos? bom, eu combinara com uma amiga, não com o mundo todo.

se tanto te incomodou, por quê não o denuncias? não me berrou, nem me insultou, nem me ameaçou, nem sequer me tocou um pelo da pele.

qualquer que fosse a nossa resposta, esta vai ser questionada por tírios e troianos: demasiado neutra, demasiado agressiva, demasiado indulgente, demasiado… a única que seria percebida como normal seria aquela que se espera de nós: sorriso de amabilidade e consentimento na partilha de mesa e conversa.

o caso é que debatendo a pertinência da reacção minha e da minha colega (admito que ela foi menos borde), perdemos o foco do fundamental: um gajo invade um espaço ocupado por mulheres e, ao sentir-se rejeitado, tenta ridiculizar a situação buscando apoio noutro homem.

o assunto importante (por enquanto para mim) não é se o gajo em questão foi agradável, maleducado ou impertinente. a questão é que ele considerou que PODIA fazer isso. a mim nem se me ocorre achegar-me a uma mesa de pessoas desconhecidas e sentar sem permissão e meter-me na sua conversa. porém, muitos homens, mais dos que tenho vontade de suportar, consideram que SIM PODEM meter-se nas minhas conversas, nas minhas danças, nas minhas calças, só porque eu sou mulher e eles homens. exercem o privilégio sem parar a pensar nele, sem cair na conta de que não, ninguém tem direito a invadir a intimidade de ninguém se não há sinais que convidem. certo é que podemos confundir os sinais. mas também é verdade que muitos exercem o seu privilégio mesmo quando há um rejeitamento explícito. o homem da anedota tardou dez minutos em erguer-se da cadeira e abandonar a nossa mesa. dez minutos. e o fez para rir de nós desde a superioridade que lhe dava o cóvado apoiado no balcão do bar. pedir desculpa nem se lhe passou pola cabeça.

quando uma companheira define um homem como invasivo ou pesado sei de que está falar. sei-no porque o vivim, vivo-o e, muito temo, vivirei-no. cadavez que fago vida social, de qualquer tipo, laboral, política, cultural, de lazer, dou com homens que atuam dessa maneira. levo a mala da experiência carregada de anedotas deste tipo, que ao ser continuadas no tempo já não podem ser chamadas anedotas. é o contexto em que me movo. queira ou não. e devo aceitá-lo ou deixá-lo, seique. o que não me convém é alçar a voz e falá-lo, seique.

quando vivo estas situações, porvezes tenho paciência, outras estou de bom humor e fago zombaria, outras vezes sou borde e distante [deve ser a mais das vezes, pois essa é a sona que me acompanha], poucas vezes sou violenta, mas não porque não me tenha faltado a vontade, senão o atrevimento; também há vezes em que me sinto mal, culpável de não sei qual delito, porque não sempre o meu ánimo está ótimo e não recebo essas mensagens da mesma maneira. o que sim é sempre é cansativo, mui cansativo. mesmo esgotador.

aquilo que [praticamente] nunca encontro é uma reflexão desses homens sobre o próprio comportamento, sobre o próprio privilégio. quando a sua atitude é visibilizada, na forma em que o for, a reação é de livro: radical, feminazi, extremista. já nem pode um sentar com uma moça para ver se há assunto… nada sobre a própria maneira de relacionar-se ou dirigir-se às mulheres.

podo entender, mesmo suportar, depende de quando onde e como, que um homem tenha uma atitude machista. eu tenho-as. reviso os meus comportamentos, reflexiono, ando alerta, porém não podo evitar que aflore em mim a cultura na que fui criada. não podemos evadir-nos o tempo todo à educação que recebemos, as mensagens e pressões sociais que nos bombardeiam. o que me dói, o que me amarga (aqui sim podo ser tachada de amargada) é a ausência de auto-crítica, de questionamento dos próprios privilégios, de interesse em escuitar o que nos[outras] tenhamos que contar. dói-me sobretodo quando detecto esta ausência de reflexão e atendimento em colegas, em companheiros de luitas, em amigos. isso amarga-me muito mais que qualquer gajo que sente na minha mesa e interrompa uma das minhas conversas.

e se não escrevia, rebentava.

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