apiário

abelha

as mulheraças que levam a editora apiário pediram-me um texto sobre as abelhas e saiu este…

 

quanto mais a monte tenho o jardim

mais dele gostam as abelhas [e as ovelhas também].

as vizinhas censuram-lhe a estética.

empresto-che a desbroçadora?

[google traductor: a ver se desbroças!]

essa casa assim não loze não brilha.

de limpares afloraria elegante o pátio.

ai, onde esté uma roseira uma petúnia.

e cada vez que saio ao jardim

foucinha na mão     luvas na pele

disposta a ceifar estrugas fiunchos

mentastros nêvodas invasoras

um nuveiro antófilo achega-se-me

em baila mais que em revolta.

não são agressivas as abelhas

não aguilhoam nem avançam enxamiadas.

botam a sua dança e eu percebo

nos giros na velocidade na orientação

respeito do sol [e do castro]

que falam para mim. comigo.

gostam do meu jardim a monte.

saborosos meles e alegres nascem dele

[dizem elas. eu não sei do trobo].

já poucos lugares [aí o seu lamento é grande]

restam com estrugas fiunchos

mentastros nêvodas invasoras.

a zunida argumentação vence[-me].

eu abandono foucinha luvas

descobro a pele boto mão

das más flores mentoladas

gozo do arrecendo e de manter

o jardim a monte.

na aldeia ganho sona de preguiceira [e poeta].

 

 

A imagem roubei-lha a Eiti Kimura e tirei-na de aqui.

café amargo

mulheres_cafe

entro no café. lá esta dolo, a minha amiga. sempre combinamos nesta hora. falamos e lemos a imprensa do domingo. comentamos a semana. rejoubamos.

neste momento uma tem um jornal na mão; a outra uma revista. lemos, e de quando em vez, uma comenta olha o que disse rajoi; a outra para a leitura, marca com o índice a linha em que vai e atende.

um homem, desconhecido para as duas, achega-se. desarrima uma das cadeiras e senta. fala uma vez acomodado.

– vou sentar com vós. vejo que estades sozinhas e aborrecidas.

 

– quem che disse tal.

 

– podo ficar aqui com vós?

 

– faz o que che pete – e continuamos como antes. uma tem um jornal na mão; a outra uma revista. lemos, e de quando em vez, uma comenta olha o que disse feijoo; a outra para a leitura, marca com o índice a linha em que vai e atende.

passados uns minutos o homem ergue-se, vai para o balcão e comenta algo com o camareiro, partilhando ambos risadinhas e olhadas cara a nós. será o de sempre. bordes, malfolhadas, lésbicas, amargadas, reprimidas, feias. o que escuitamos quando rejeitamos uma conversa, uma dança ou um sorriso que se nos supõem obrigatórios. porque temos sorte de que um gajo queira sentar e falar com nós.

podiamos erguer-nos (uma de nós, as duas), dirigir-nos ao senhor e explicar-lhe quatro cousas. imagino a surpresa geral: as pessoas a levantar a vista das suas conversas e olhar para essa(s) histérica(s) que abronca a um homem. porque provavelmente, embora estando no café, ninguém reparara no acontecido.

não tinhamos que reagir assim, diredes algumas. que vos custava ser amáveis. e eu ás vezes também o penso: que me custava ser amável.

não estás a ser um pouco exagerada? um homem tentou flirtear com vós, não teve sucesso, já leva nisso a penitência. a que lhe dás mais voltas?

isso não é machismo, é má educação (como se fossem incompatíveis); pode ser. porém, havia mais mesas ocupadas e a nossa era a única na que não havia homens.

não atuariades assim se fosse um moço gharrido e fermoso. quem sabe. mas estou certa de que se um moço gharrido e fermoso interrompe a minha vida sem eu lhe dar pé, também me incomodo.

para que vas a um local público, se não queres interatuar com desconhecidos? bom, eu combinara com uma amiga, não com o mundo todo.

se tanto te incomodou, por quê não o denuncias? não me berrou, nem me insultou, nem me ameaçou, nem sequer me tocou um pelo da pele.

qualquer que fosse a nossa resposta, esta vai ser questionada por tírios e troianos: demasiado neutra, demasiado agressiva, demasiado indulgente, demasiado… a única que seria percebida como normal seria aquela que se espera de nós: sorriso de amabilidade e consentimento na partilha de mesa e conversa.

o caso é que debatendo a pertinência da reacção minha e da minha colega (admito que ela foi menos borde), perdemos o foco do fundamental: um gajo invade um espaço ocupado por mulheres e, ao sentir-se rejeitado, tenta ridiculizar a situação buscando apoio noutro homem.

o assunto importante (por enquanto para mim) não é se o gajo em questão foi agradável, maleducado ou impertinente. a questão é que ele considerou que PODIA fazer isso. a mim nem se me ocorre achegar-me a uma mesa de pessoas desconhecidas e sentar sem permissão e meter-me na sua conversa. porém, muitos homens, mais dos que tenho vontade de suportar, consideram que SIM PODEM meter-se nas minhas conversas, nas minhas danças, nas minhas calças, só porque eu sou mulher e eles homens. exercem o privilégio sem parar a pensar nele, sem cair na conta de que não, ninguém tem direito a invadir a intimidade de ninguém se não há sinais que convidem. certo é que podemos confundir os sinais. mas também é verdade que muitos exercem o seu privilégio mesmo quando há um rejeitamento explícito. o homem da anedota tardou dez minutos em erguer-se da cadeira e abandonar a nossa mesa. dez minutos. e o fez para rir de nós desde a superioridade que lhe dava o cóvado apoiado no balcão do bar. pedir desculpa nem se lhe passou pola cabeça.

quando uma companheira define um homem como invasivo ou pesado sei de que está falar. sei-no porque o vivim, vivo-o e, muito temo, vivirei-no. cadavez que fago vida social, de qualquer tipo, laboral, política, cultural, de lazer, dou com homens que atuam dessa maneira. levo a mala da experiência carregada de anedotas deste tipo, que ao ser continuadas no tempo já não podem ser chamadas anedotas. é o contexto em que me movo. queira ou não. e devo aceitá-lo ou deixá-lo, seique. o que não me convém é alçar a voz e falá-lo, seique.

quando vivo estas situações, porvezes tenho paciência, outras estou de bom humor e fago zombaria, outras vezes sou borde e distante [deve ser a mais das vezes, pois essa é a sona que me acompanha], poucas vezes sou violenta, mas não porque não me tenha faltado a vontade, senão o atrevimento; também há vezes em que me sinto mal, culpável de não sei qual delito, porque não sempre o meu ánimo está ótimo e não recebo essas mensagens da mesma maneira. o que sim é sempre é cansativo, mui cansativo. mesmo esgotador.

aquilo que [praticamente] nunca encontro é uma reflexão desses homens sobre o próprio comportamento, sobre o próprio privilégio. quando a sua atitude é visibilizada, na forma em que o for, a reação é de livro: radical, feminazi, extremista. já nem pode um sentar com uma moça para ver se há assunto… nada sobre a própria maneira de relacionar-se ou dirigir-se às mulheres.

podo entender, mesmo suportar, depende de quando onde e como, que um homem tenha uma atitude machista. eu tenho-as. reviso os meus comportamentos, reflexiono, ando alerta, porém não podo evitar que aflore em mim a cultura na que fui criada. não podemos evadir-nos o tempo todo à educação que recebemos, as mensagens e pressões sociais que nos bombardeiam. o que me dói, o que me amarga (aqui sim podo ser tachada de amargada) é a ausência de auto-crítica, de questionamento dos próprios privilégios, de interesse em escuitar o que nos[outras] tenhamos que contar. dói-me sobretodo quando detecto esta ausência de reflexão e atendimento em colegas, em companheiros de luitas, em amigos. isso amarga-me muito mais que qualquer gajo que sente na minha mesa e interrompa uma das minhas conversas.

e se não escrevia, rebentava.

Toda a Terra na Nossa Palavra

Encontro_areal

Há uns anos que ando entre duas terras, as de taveirós e as da arousa. terradentro e a banda do mar, digo-as eu para mim.

E o 21 de junho tocou terradentro. Convidada pola AC Vagalumes, partilhei a manhá e a tarde com Rominal Bal, Antóm Laia, Ángel Utrera, Neves Soutelo, David Otero, Marcos Borrageros, Fernado Porto e Lorena Rei, Cristina Gende e Xosé Vázquez Pintor, e a música, maravilhada sempre, de Isabel Rei e Mini e Mero.

berres_igreja_calor

Papamos muita calor na igreja de Berres, na leitura de textos perante as lousas de Avelina e Marcial Valhadares [as poetas também sofrem] e relaxamos depois no Areal, a minha praia de terradentro [devo-lhe um poema, ou dous].

Lim este poema e este, ademais das minhas mulheres e arte.

Aqui, a galeria de imagens, algumas bem fermosas.

eu_berres

DdOLeR 2015: fui a madrinha!!

cartaz1

A gentinha organizadora do Dia do Orgulho Lusista e Reintegrata, ou, à maneira coloquial, Dia da Toalha, leva anos convidando artistas famosas para amadrinhar as suas actividades. eu já sei que nunca levarei o nóbel, nem o dia das letras assim que leve dez anos morta, polo que era uma das minhas ilusões secretas: chegar a ser uma reintegrata o suficientemente famosa para ser a madrinha atoalhada.

Como todas ficastes apavoradas pola minha presença no cartaz, é provável que deixárades passar o texto que elaborei, e do que estou mui orgulhosa: se isto não se amanha, toalha toalha toalha!

Eis o continho:

no mais íntimo, reintegrata

o enxoval

as toalhas fazem parte do nosso enxoval, essas peças bordadas, ornadas, rendilhadas que transformarão qualquer espaço que vivamos num lar, num ninho privado. são elas que que dão bilhete de identidade aos muros, aos pavimentos, aos azulejos que nos acolhem. são as toalhas que exploram costas, são as toalhas que percorrem coxas, são as toalhas que visitam virilhas de saibo asseado. no nosso mais íntimo. é a toalha o vínculo entre o àmago e a cortiça. o fio tramado que nos leva ao mundo limpas, suaves e enxugadas.

como a língua: o material com que construímos os afetos. o prazer.

na feira

o recordo da viagem é dúbio. lembro só chuva, muita chuva. no assento traseiro do renault 8 ainda colhiamos as cinco crianças, sentadas como xoubinhas, uma para adiante, outra para trás. lembro o enfado do meu pãe, a sua caluga franzida e a voz a maldizer o dia e a hora em que alguém propus ir à feira de valença, que lá as toalhas sim eram boasbonitasbaratas. picáramos por duas vezes as rodas: uma em moranha, outra após vigo. agora era chuva e era alfándega e era 12 de outubro. o piquenique virara impossível no atoramento de guardinhas e guarda-civis. não chegamos a valença. demos volta após três horas como enchoupadas xoubas na fileira de galegas atoalhadas. e nunca ninguém, nos anos que segueram, ousou propor outra viagem à feira de valença. para quê os trabalhos.

frustrada e desértica travessia à língua portuguesa de tantas galegas, rendidas no primeiro furo de pneu [que pneu nem que pnou, roda!].

toalhas de todas as cores e flores

quando estudantas viviamos no burgo das nações. tinhamos um companheiro que concentrava, como diana, todos os nossos sentidos, pois não quadrava a sua fasquia com os seus declarados gostos: maldição, um incoerente!

– josé, como pode ser que vistas sempre com floradas camisas e hawaianas, escutando a música que escuitas? -ousamos perguntar [provocar] um dia.

a resposta calou-nos a boca, nasceu-nos nela um sorriso de rebentada tenrura e fez-nos questionar este moralizante mundo dos preconceitos que nos envolve, como roupão protetor:

– vós não percebedes. o heavy, leva-se no coração.

o heavy leva-se no coração

e o reitegracionismo também. quantas de vós não sodes, no fundo, reintegratas? quantas de vós não levades o -m final no coraçom? quantas de vós não gozades no íntimo essa algodonosa toalha a recorrer as virilhas? quantas não sorrides de rebentada tenrura ao verdes um nh riscado num muro, um c cedilhado a bordar uma sentença?

porém, quantas de vós não vos destes por vencidas na primeira viagem porque picastes uma roda, porque temestes as consequências de cruzar a alfándega, porque vos amedou, inibidas, o que-dirão, porque não estavades preparadas para a chuva, para a calor, para a eterna espera do momento adequado? quantas não vestides hawaianas sentindo um urro roqueiro atorado na gorxa, cravada espinha?

e no íntimo, reintegrata

se formiga nas vossas dedas a dança do galego internacional, se cantais no duche sambas, mornas e alalás, se esfregais humidades recitando de cor maio maduro maio, se secais o cabelo acompanhadas da galinha pintadinha, se sentides alívio auricular escuitando o falar das crianças de vila-nova da cerveira, se a língua vos foge da boca por conhecer mundo,

são horas de sairdes do roupeiro, largar o moralizante roupão protetor e gozar, no público e no púbico, do reintegracionismo.

benvindas ao prazer!

Encontro Poético Intercentros

O passado 15 de maio, faltei à minha escola para fazer de poeta noutras escolas… Os IES de Poio, de Sanxenxo, de Ribeira de Louro do Porriño e de San Paio de Tui arrejuntam cada ano um manado de poetas, entre alunado e convidadas e passam um dia de convivência partilhando música e poetadas.

Eu sempre lhes tivem um algo de inveja. E este ano caeram na conta e fui uma das poetas convidadas, junto com a amiga Clara Pino, a amiga desde esse dia Rosalía Fernández Rial e Serj, músico abandonado nas praias da Costa da Morte.

Vemo-nos em Caldas de Reis, onde figemos obradoiros de poesía e música, partilhamos as nossas criações num recital e repartimos entre as caldenses e caldianas marcapáginas e anúncios breves num roteiro literário pola vila.

para que digam que a poesia está morta…

enredando_versos1

enredando_versos2

parabrisas

maracapaginas1

 

Páxina seguinte »